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8 de novembro de 2008

Past up na Folha

Nos anos setenta o cabelo tinha um peso grande para as empresas e, como eu preferia mantê-lo, passei a dar menos importância para o emprego. Assim, fui parar onde cabeludo era quase regra: nas oficinas da Folha de São Paulo.
O serviço era passar cera quente no papel, recortar com estilete, colar conforme um diagrama numa prancha quadriculada de azul, riscar os fios com nankin, corrigir as vírgulas e acentos de última hora e torcer para que, no caminho entre a sua página e o fotolito, não caísse nenhuma letra. Isso, o que um Past up fazia na Folha, toda santa noite. Quanto mais rápido, melhor.
Tinha lá a Gaveta de Cristal, sabe?! Pois é, funcionava assim: lá pelas tantas você precisava montar uma das seções mais lidas da Folha: o horóscopo. Então, abria a Gaveta, misturava e era só colar os bloquinhos de texto, já encerados, até fechar a coluna. E, não é que sempre dava certo? Diziam... Hoje, quando leio matérias científicas que afirmam terem, finalmente, confirmado o efeito da sugestão para a cura de qualquer mal, lembro da tal Gaveta.
Não tardou, comecei a montar as primeiras páginas, pouco tempo depois já estava diagramando e ainda sobrava tempo para visitar o Maurício de Souza, no último andar... Queria ser letrista de quadrinhos, mas o pessoal gostava da rapidez e limpeza com que eu montava as páginas e não saí do lugar. Fiquei o suficiente para escapar do salário, inversamente proporcional ao tamanho do cabelo da moçada.

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