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31 de outubro de 2009

Ruy Braga, na memória e no fazer

Ainda deparo com alguns bits que o Ruy Braga, antes de fechar a conta do buteco definitivamente, espalhou pelaí. Coisa séria esse Ruy.

Zen nada para fazer

Deveria ser óbvio para todos que ação sem sabedoria, sem uma clara visão do mundo, “tal como ele é”, jamais poderá melhorar seja o que for. Mais ainda, tal como a melhor maneira de tornar límpida a água lamacenta é deixá-la repousar, poderíamos argumentar que aqueles que se sentam calmamente “nada fazendo” estão a dar uma das melhores contribuições possíveis para melhorar um mundo de desordem.
Na verdade, nada há mais natural do que passar longos períodos tranquilamente sentado. Os gatos fazem-no. Até os cães e outros animais mais nervosos o fazem. Os chamados povos primitivos fazem-no, os Índios Americanos também, bem assim como os camponeses de quase todas as nações. Esta arte é extremamente difícil para os que desenvolveram a tal ponto o intelecto que não conseguem deixar de fazer previsões sobre o futuro, mantendo-se, portanto, num constante torvelinho de atividade mental.
O Zen não é, pois, estar com uma mente vazia que rejeita todas as impressões dos sentidos externos e internos. É simplesmente uma atenção calma, sem comentários, ao que quer que aconteça aqui e agora.

29 de outubro de 2009

23 de outubro de 2009

O maquinista de sonhos


Pra onde vão os trens meu pai?

Para Mahal, Tamí, para Camirí, espaços no mapa,
e depois o pai ria: também pra lugar algum meu filho,
tu podes ir e ainda que se mova o trem

tu não te moves de ti

Hilda Hilst, Tu não te moves de ti
Presente da Gra, nosso amor: de todo coração e um pouco de literatura, das boa!




Ganhamos de presente, um CD repleto de fotos antigas. O amigo Rainer enviou pelo Correio. A de cima é uminha e tem mais centenas! Encantadoras, reveladoras , mas neste textinho vai só uma palhinha, que é pra dar vontade de ver mais.


Sabe quem iria vibrar com esta descoberta? O saudoso e querido amigo Sílvio Coelho dos Santos.

APITA, APITA!!!
Todos temos paixão pelos trilhos. Seja porque um dia nos levaram a passear ou porque os filmes sempre estão a lembrar que por aquelas paralelas cruzaram muitas, mas muitas histórias. Umas verdadeiras de doer e outras leves e traquinas.

Assim, lembrando de cinema, fomos parar em Piratuba, lugarejo com duas coisas boas: tomar banho nas termas e conhecer o Rainer. Um dia também veremos o Festival de Vídeo que o Gilberto Gerlach nos anunciou várias vezes.
Ah, tem mais coisa boa na cidade, sim: os moradores de Piratuba são gentis e hospitaleiros. No mais, muito concreto, pilhas de lojinhas e nenhuma área de preservação pra valer, uma pena...

Peterson Nepomuceno, foguista e futuro maquinista e o atual, Rainer Ilg. Destacado piloto de vôos em linhas particulares, Ilg passa boa parte das horas em terra sentido o calor da caldeira da locomotiva.

Gravamos uma hora inteira de entrevista com o Rainer, porém, numa falta de sorte total, nossa gravação desapareceu, assim, sem mais nem menos evaporou do gravador. Perdemos referências, nomes e curiosidades dessa grande figura, que ao lado do seu fiel escudeiro, o Peterson, parou para explicar como funciona uma Maria-Fumaça, construída em 1907 entre tantos causos que seriam a base, o off do video que fermenta na minha cabeça.

Rainer é um dos fundadores da Regional Santa Catarina da ABPF, uma associação dirigida para quem e por quem parece que gosta de ouvir vinil, andar de bicicleta, olhar para os lados, cumprimentar os passantes, enfim, para quem quer viver todos os tempos, calmamente.

Depois de andar por Piratuba um bom tempo, pegar a Maria-fumaça na curva e fotografar muitas peças maravilhosas, Rainer armou um passeio inesquecível pra gente, na cidade vizinha, Gaurama, onde o Edson Luiz Ramos nos esperava com a sua Super Rural.
Bom, essa conversa vou deixar para uma outra vez, quando tiver editado o video.

Por enquanto mando alguns frames, só pra dar água na boca.

O Edson pilota a Rural entre as paralelas. Nada de curva fechada, volante pra quê?

Os espinheiros riscam a perna dos trabalhadores, mas isso não é nada. Pior: muito lixo na beira dos trilhos, jogados pelos moradores. Êta raça sem graça!

Três eixos e vira de um lado para outro, magicamente.

A bem humorada turma da manutenção da linha Piratuba/Erechim, depois do passeio, num dia de folga.


A Toya e a minha amada Gabriela na janelinha, sobre a ponte de Marcelino Ramos, divisa entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul, onde o Pelotas encontra-se com o rio do Peixe e formam o Uruguai.



2 de agosto de 2009

Elis Regina, uma fotografia


Sempre gostei demais da Elis, tanto que um dia, Leonardo, meu filho, encontrou lá na Ilha de Santa Catarina, no Campeche, caído no chão, um envelope pardo e dentro uma foto original, no formato 18x18cm da minha querida Elis. Parece que é dos últimos anos em que viveu...
Ninguém sabe quem é o autor da foto. Será que, agora, publicando descobrirei?

1 de agosto de 2009

Entrevista com Hermeto Pascoal



Por: Carlos Roque
Fotos: Cristina Villares para a Revista Planeta/115 de abril de 82, gentilmente cedida por Graciela Kruscinski.

Som total e magia branca

Canceriano de Arapiraca (Alagoas), seis filhos e uma única esposa, 45 anos de idade e 38 de iniciação musical, autoproclamado "cidadão do mundo", Hermeto Paschoal é hoje uma das mais perfeitas sínteses entre o conhecimento teórico musical e a expansão intuitiva da mente através da magia dos sons. Depois de cinco álbuns gravados (três aqui e dois nos EUA) e "duelado" com os mais competentes, sofisticados e simples músicos da Terra, além de parcerias com outros animais (organizadíssimas orquestras de sapos, porcos talentosos e outros bichos), ele fala a Planeta sua experiência como músico, místico e telepata, da mente em turbilhão.

De todas as formas existentes e conhecidas de arte, a música parece ser a forma de expressão que mais comporta e traz em si mesma a magia e o mistério da emoção imediata, forma esta detectada pelas antenas mais sensíveis, talvez por tocar de uma maneira mais aguda os centros emocionais dos seres. Hermeto Paschoal, considerado pela crítica especializada como um dos melhores e mais criativos músicos do mundo, é o que poderia ser chamado de um músico instantâneo. Respira e exala música pelos poros, voz, toques, narinas, olhos, expressões.

Nos encontramos numa tarde em que chovia densamente, no Estúdio de Arte Fotográfica Preto&Branco, no coração de Sampa, alguns dias após a estréia, no Teatro da Universidade Católica, do espetáculo "Brasil Universo", onde Hermeto e sua banda, composta por magníficos e virtuosíssimos músicos, deram uma mostra da atual fase do inquietante e controvertido trabalho hermetiano. Sandálias de couro, chapéu de palha estilo panamenho, enormes cabelos brancos puxados para trás, óculos semiescuros, bata cor de açafrão com bordados delicados. Sua personalidade lembra, à primeira vista, um gnomo em proporções humanas. Parece um personagem extraído do Livro das Fábulas, de Hermann Hesse. Indubitavelmente Hermeto é um bruxo do Bem - naturalmente -, como o Don Juan de Carlos Castañeda. Aos 45 anos de idade, natural de Lagos da Canoa, município de Arapiraca, Alagoas, teve suas primeiras experiências musicais aos 7 anos de idade, quando abraçava-se à harmônica de oito baixos que seu pai, após tocá-la, deixava sobre a cama.


Depois de urna breve familiarização com o instrumento, ele e seu irmão, José Neto, tocavam para seu pai ouvir. Desde então não parou mais. Tido como mestre por músicos do quilate de John McLaughlin (ex-integrante do grupo Mahavishnu Orcuestra e considerado pela crítica especializada como o guitarrista mais ágil do jazz) ou do tecladista Crick Corea, Hermeto já foi alvo de calorosos e arrebatadores elogios como os que recebeu de Claude Nobs, organizador do Festival de Jazz de Montreux, que o considera um dos maiores jazzman do mundo. Hermeto jamais estudou música formalmente. Quer seja em conservatório ou através de aulas particulares. Aprendeu tudo sozinho. Sua voz é baixinha, pausada e cálida. Ele diz assim:
"A música acontece comigo de uma maneira intuitiva. Eu tenho uma maneira toda minha de escrever música. É um trabalho que venho desenvolvendo ao longo de todos esses anos e que futuramente pretendo editar. Por não ter tido professor eu criei uma nova maneira de escrever música.
Meu professor chama-se Mundo. Esse é o meu professor. Eu acho que a música só é convencional quando a gente não cria. O negócio é intercalar as coisas. São como as cores; tudo depende do gosto das pessoas. Então eu pego as notas musicais e simplesmente jogo com elas. Eu conheço todas as claves e todos os instrumentos. Eu escrevo pra sinfônica, banda, coro e pra qualquer tipo de orquestra."


Um pedaço de pau tem a mesma importância do saxofone

Hermeto estabelece com a música uma relação cromática. Seu universo musical parece ser grávido de cores. Ele mesmo explica-se: "Da mesma maneira que um pintor pinta um quadro eu posso compor. Tudo isso porque eu já tenho os sons na mente. Posso tocar piano imaginando um piano. Eu não sinto falta de instruumento."

Ele não tem idéia de quantos instrumentos toca. Ao que se sabe, Hermeto é um multiinstrumentista. Toca piano, órgão, harmônio, bateria, clarinetes, triângulos, violão, cavaquinho, flautins, sax-soprano, flautas, pedal de órgão, tamborim, surdo, saxofones, etc., faz dueto com sapos, grilos e porcos, além dos instrumentos por ele inventados, como a bacia e as garrafas d'água. Ele explica como vê um instrumento musical:
"Cada vez que eu pego um instruumento eu sinto que nunca é igual. Eu sinto como se fosse um outro instrumento. A mesma importânncia que dou a um saxofone eu dou a um pedaço de pau. Porque com um pedaço de pau eu faço um som tão importante quanto eu faço num saxofone, piano ou qualquer outro instrumento."

Paschoal diz que toda pessoa faz música. Mesmo sem o saber. Exemplifica esse conceito da seguinte maneira: "Quando alguém pega uma panelinha, põe um ovo pra fritar... você já ouviu que som lindo é um ovo fritando? Pra mim todas as pessoas são grandes percussionistas. Só que muitas são percussionistas inconscientes. Por exemplo: você tá na cozinha e escuta a pessoa dizer: 'O Fulano, me traz aqui a colher de pau!"

Para Hermeto, todos esses detalhes do cotidiano ganham conotações musicais. Assim sendo, ele in-. terpreta a frase acima musicalmente e é uma pena que no texto, se já é impossível traduzir a beleza com que Hermeto cantou: "Oh Fulano, me traz aqui a colher de pau."

Usa a imaginação para criar sons e simplesmente os concebe, através dele. Instantaneamente. Ele diz assim: "Pra mim tudo é música e a música é tudo." Trata-se de um artista do signo de Câncer, filho da Lua, das águas, Mãe da Terra. Perguntado se acredita em Astrologia, responde:

"Eu acredito em tudo, desde que seja feito com muita seriedade, estudo e muito respeito. Eu acho a Astrologia uma coisa seriíssima Mas tem muita brincadeira nisso tudo. Como também tem muita brincadeira em cima da música.

"Brincadeira", aqui, tem o sentido de irresponsabilidade e consumismo maquinal caótico. A música habita o universo hermetiano de forma absolutamente intuitiva. Coisa de Mago. Alquimista de sons, um médium-telepata em potencial integral e ativo. Se considera um receptador do universo. Verdadeiro radar de sonoridades. Sobre sua descendência diz assim:

"Minha descendência é de raça mundial. Minha mente anda tão rápida, numa velocidade tão vertiginosa, que eu não consigo distinguir diferença de um lugar pra ouutro. Eu já perguntei para os meus pais sobre isso, mas eles também não sabem. Acho que todo mundo é descontente de todo mundo."

Casado, pai de seis filhos, um deles apresentou desejos de aprennder música e Hermeto disse que lhe arrumaria um professor. Como resposta ouviu do filho: "Meu professor tem que ser o senhor."


Posso reger tanto uma orquestra de sapos quanto uma filarmônica

Chamado carinhosamente pelo apelido de "Campeão", ele é o principal personagem do filme curta-metragem que leva no título o seu nome e seu apelido: "Hermeto, o Campeão". Nesta fita, que brevemente será lançada através de uma emissora de televisão brasileira, há uma seqüência verdadeiramente maravilhosa onde Hermeto, tocando flautim na beira de uma lagoa, estabelece uma incrível sinfonia com uma orquestra de sapos que cantavam no mesmo tom emitido por seus instrumentos. Teve uma hora que, diante da sonoridade coletiva dos sapos, teve que dar tudo de si para que a harmonia musical conseguida no início da experiência não se desvanecesse, tamanha a variedade de rítmos e sons emitidos pelos sapos. Paschoal tem uma sensibilidade musical tão aguda que conseguiu distinguir entre todos os sapos "um que tinha a voz mais alta e sonora e que deveria ser o maestro".

Hermeto trabalhou na Rádio Difusora de Caruaru (PE) e tocou na feira dessa mesma cidade além de peregrinar por várias regiões do Nordeste; das caatingas às feiras populares. Mais tarde, já em São Paulo, sentava nos degraus da escada da Igreja da Consolação, de noite, e fazia um som. Tocou também muitas vezes nas boates paulistas. Suas aparições em televisão se deram em meados dos anos 60, na época dos festivais de música que ele gosta muito "pela oportunidade que dão aos músicos de mostrarem seus trabalhos".

Ele acha que o músico é um mágico. Mas faz questão de frisar: "Mas nem todo mágico é um músico. Porque há determinadas pessoas que já nascem com o dom da música. Então é preciso que esse dom seja lapidado, desenvolvido. Cada pessoa nasce com um dom específico. Esse negócio da gente querer agradar as pessoas e dizer que todo mundo é inteligente, tem um mesmo nível ... eu acho errado. É claro que ninguém tem culpa, mas existem determinadas pessoas que assimilam as coisas com muito mais facilidade. Modéstia à parte, eu sou uma delas." Ele lembra uma passagem muito interessante ocorrida em Berlim, durante um Festival no qual participou, onde fazia um número tocando flauta. Momentos antes de entrar em cena, ocorreu-lhe a idéia de pegar uma flauta, que parece uma bengala, e introduziu dentro da mesma uma outra flauta de bambu. Hermeto já tinha ouvido falar que na "terra de Beeethoven" havia um público muite exigente, mas, como sempre, achou que não há diferença de público, seja europeu ou hindu. Entrou em cena como se estivesse em qualquer teatro brasileiro.


O telepata que viaja com os sons no plano astral

Vamos agora ouvir o desfecho dessa história através do próprio Hermeto: "Aí eu pensei assim: 'Quando eu for tocar não vai sair nada, nem uma nota.' Fiz uma expressão como se estivesse apavorado. Bicho, quando eu soprei e não saía nada eu ouvia o sussurro do público alemão que parecia uma porção de abelhas, como a dizer assim: 'Coitado, coitado do rapaz ... que vexame: Eu escutava tudo, não pelas palavras, mas sim pelas vibrações mentais que eu captava das pessoas que estavam me vendo. Na verdade o som não é importante. O que ocorreu é que eu sabia o que elas falavam entre si. Quando eu atingi o máxino do desespero possível na platéia e também pra efeito de um impacto maior, eu inclinei a flauta um pouco e de dentro da flauta maior foi saindo, aos pouquinhos, a flauta de bambu. O teatro, quase caiu. Na hora me veio o pensamento que aquilo era magia pura. Naquele momento eu agradecia ao Ser Maior, ao Infinito por eu ter tido a idéia de me comunicar com o público de uma maneira tão mágica e tão sublime e que serviu de introdução para a música que eu ia tocar. Então eu peguei a flauta de bambu, pus a flauta maior no chão, e fiz um solo maravilhoso que arrasou com tudo."

A magia faz parte integrante não só do seu trabalho, mas tammbém da sua própria vida. Ele conta agora uma incrível experiência transcendental ocorrida num teatro de São Paulo. "Uma vez eu tocava piano num show e comecei, repentinamente, a ver uma porção de coisas. O que eu vou falar pode dar a impressão de que são coisas assombrosas, mas não são não. Eu via aranhas, um negócio assim, tudo misturado, e eu vendo aquilo imediatamente fui levando o piano comigo, tocando sem parar e o piano indo embora comigo e eu indo embora com o piano até que eu passei do palco com piano e tudo e caí lá embaixo, no chão. Foi uma sensação tão maravilhosa que não tem expressão que possa definir. "

Meu choro é interior. Para mim não existe a tristeza

Outra experiência transcendenntal ocorreria no mesmo teatro naquela mesma noite. "Enquanto eu tocava. falecia no Rio de Janeiro um irmão meu. Eu senti isso na hora e parei o show. Isso que eu vou contar não é triste não. É alegre. Daí eu disse: "Um momento que tá rolando um negócio aqui. Aí respirei fundo e imediatamente veio em minha mente a imagem do meu irmão. Recebi a mensagem dele, toquei e terminei o show. Mais tarde, quando cheguei em casa. já de madrugada, minha mãe me telefonou participando a morte de meu irmão. Daí eu resspondi: 'Eu já sabia, mãe: Mesmo tocando eu já sabia. Dediquei a ele tudo de maravilhoso através da música."

Os conceitos hermetianos são repletos de magicismo, imaginação e sonho. Sobre os sonhos ele diz: "Tudo que eu sei aprendi sonhando. Aprendi a tocar sonhando, aprendi música sonhando. Eu sou consciente. Da mesma forma que eu recebo eu envio mensagens. Eu tenho esse poder. Mas que fique bem claro que eu não sou robô 'deles' não. 'Eles' me dão o poder de exigir. Eu não estudo nada, na minha casa eu tenho meus pontos e só de olhar pra eles eu sei se vai chover ou não. Tudo comigo acontece através da música e da intuição, que realmente é a coisa mais séria que existe."

Hermeto chegou a concluir o terceiro ano primário. Tem, ao todo, cinco álbuns gravados, dos quais dois nos EUA e três no Brasil. Ele fala como nasceu o LP Zabumbê-Bum-A que, como diz o título, é o tocador de zabumba que fica bêbado e exclama um ah. "Esse disco eu fiz praticamente na estrada e no estúdio. Eu não queria saber o que ia tocar nem o que ia gravar." A canção "Mestre Mará," por exemplo, que aliás faz parte do LP Zabumbê-Bum-A, foi composta na avenida Brasil e concluída no estúdio. Hermeto diz ter "recebido", a caminho do estúdio de gravação, uma insólita mensagem de uma personalidade que ele denominou de Mestre Mará.

Hermeto diz que não consegue chorar. Seu choro é interior. Pra ele a tristeza não existe. Mas tem horas que sente um estranho embargo na voz, o famoso nó na garganta. Sua visão de mundo é neutralista e singularizada. Diz que quem faz o mundo somos nós mesmos e que parar pra analisá-lo é não conseguir nada. "Enquanto nós pensamos as coisas rolam e o importante é que estejamos todos unidos. Pensar juntos é melhor que pensar separados."

Um de seus discos chama-se Cérebro Magnético. A capa deste LP é um desenho concebido pelo próprio Hermeto, onde procura retratar seu cérebro. Na contracapa desse disco ele diz que o cérebro é apenas uma massa encefálica receptora da mente. "Percebi que somente cada um de nós pode fotografar sua própria mente. Então resolvi desenhar o que fotografei da minha mente, que é a capa desse LP."

Praticante de vários exercícios mentais, ele diz que se quisesse ficar rico abriria uma academia para ensinar esses exercícios. Mas como essa realmente não é a dele, prefere ficar na música mesmo. "O que é que adianta eu ficar rico? Pra depois morrer do coração e ainda por cima frustrado?"

Ensina alguns exercícios que pratica e que, para ele, funcionam como uma espécie de relaxamento meditativo-contemplativo e, ao mesmo tempo, como exercícios ideais para a expansão da consciência.

Exercícios e práticas para ativar a terceira visão

Um dos exercícios mais praticados por ele consiste em fechar os olhos, exercendo leve pressão sobre as pálpebras com as pontas dos dedos, e relaxar. Hermeto diz que quando pratica o exercício consegue ver coisas e cores maravilhosas. Aponta para minha blusa de lã colorida e diz que as cores da blusa são "mais ou menos" se comparadas com as cores que consegue vislumbrar quando pratica esse exercício. Não raro, no auge desses exercícios, pintam temas musicais. E então vai correndo pegar um dos instrumentos dispostos caoticamente sobre sua cama e compõe uma canção com os olhos fechados.

E também desenha, não obstante o fato de quando está em transe - vamos dizer assim - não conseguir as cores como as que vê, "pois são cores sublimes, mas como diz o ditado: 'Quem não tem cão caça com gato'."

Hermeto vê o que quer. Numa simples cortina ou numa poça d'água consegue vislumbrar as mais belas imagens. Nos shows que dá consegue ver até arco-íris no meio da platéia. Por esses relatos incríveis dá pra perceber, nitidamente, que Hermeto é uma criatura que - como diria Friedrich Nietzsche - está acima do Bem e do Mal. Simplesmente é portador da terceira visão, que nele parece ser altamente desenvolvida.

À semelhança do Don Juan de Castaneda, Hermeto não olha simplesmente para as pessoas ou para as coisas. Ele "vê" as coisas com seu "olho especial", fato que para ele é normal. Me arrisco a falar que ele consegue "ver" tudo isso porque tem olhos de feiticeiro. Ele retruca e diz que o termo "feiticeiro" é muito confundido e que nada tem a ver com algo demoníaco. Diz ser freqüenntemente visitado, em sonhos, por seres que o ajudam a solucionar, quando ocorre, alguma dificuldade no seu trabalho musical. Depois do problema resolvido entra num processo altamente angustiante, no sentido de tentar identificar esses seres ou entidades espirituais que o ajudam. Mas por mais que queira, não consegue saber quem o ensinou. Para isso ele tem uma explicação: "O que acontece é que a 'pessoa' não quer se identificar. Quando comecei a aprender música eu só distinguia as notas através do processo em que eu classificava as notas pretas e as notas brancas. Quando eu passei do oito baixos para o acordeon eu me lembro que sonhei que as notas pretas tinham um som diferente do som das notas brancas. Tive um sonho bastante inquieto. Me levantei, fui para o acordeon e os sons das notas pretas eram exatamente os sons que em sonho eu ouvi."


A arte no reino animal: dois porcos no Bel Canto

No começo dos anos 70 Hermeto grava seu primeiro disco: A Música Livre de Hermeto Paschoal. Sua primeira viagem ao Exterior foi para compor e arranjar músicas para o percussionista brasileiro Airto Moreira e para a cantora Flora Purim. Desde então vem solidificando seu nome no mercado internacional do disco e cada vez tem recebido mais proopostas para trabalhar no Exterior, principalmente nos Estados Unidos e na Europa. Já tocou com alguns dos maiores nomes - só para citar alguns - do jazz, como Airto Moreira, Miles Davis, Ron Carrter, Chick Corea, John McLaughhlin, entre outros. Hermeto conta agora a já histórica e mítica ocasião em que levou dois porcos num estúdio de gravação norte americana.

"Eu já tinha tentado fazer esse trabalho aqui no Brasil, mas infelizmente as pessoas ficaram com medo. Todo artista inovador, quando sugere ou vem com algo que foge dos padrões tidos como convencionais, é erroneamente alcunhado de maluco. Meu lance com os porcos foi justamente para registrar o som que esses animaizinhos emitem. Muitas pessoas tentavam imitar o som do porco, do cachorro, enfim, o som dos animais de uma maneira que eu constatava. Pegavam plástico, essas coisas industrializadas, para tentar imitar o som dos animais. Então eu sempre achei que o animal, que
é tão pequeno, poderia ser levado para o estúdio e assim fazer um trabalho fiel no sentido de reproduzir o som que eles emitem de uma maneira muito mais bonita do que um som artificial. Aqui, infelizmente, não consegui fazer esse trabalho, mas nos Estados Unidos, onde sou muito respeitado, fiz com a maior facilidade do mundo. As pessoas logo ficaram por demais curiosas e prontamente liberaram o estúdio. Conseguimos arrumar dois porcos de estimação mas tivemos que levar os donos dos porcos, pois eles ficaram muito intrigados pensando assim: 'O que será que vai acontecer? Será que ele vai maltratar os bichinhos?' Então fomos todos para o estúdio. Chegando lá eu disse asssim para o Airto: 'Airto, eu vou lá pra mesa de som e você fica com os dois porcos. Quando eu pedir para você levantar o número 1, que tem a voz mais grave, você simplesmente levanta o bichinho; quando eu pedir pra você levantar o número 2, que tem a voz mais aguda, você faz a mesma coisa.' E assim foi feito. Gravamos a voz de cada porco em canais separados. No final todo mundo ficou contente, porque ficou uma gravação maravilhosa. Aliás, essa música chama-se "Missa dos Escravos" e foi concebida na hora da gravação, muito embora eu já tivesse o tema em mente e que era o de uma missa sendo celebrada dentro da mata e os porquinhos andando em volta."

Para ele o Brasil é o país mais criativo e o maior celeiro musical do planeta. Hermeto não ambiciona a riqueza nem a glória: "Quero ficar rico, cada vez mais rico, só que em notas musicais."

Além de músico espetacular, é também inventor de originais instrurnentos, como as garrafas d'água e os serravelhos, outro instrumento criado por ele, que é uma tábua parecida com uma hélice, com um orifício na ponta superior. Rodando essa tábua, que difere em espessura para efeitos de novos acordes, Hermeto consegue extrair sons maravilhosos, muito parecidos com as ventanias que prenunciam tempestades. Além desses instrumentos, Hermeto utiliza a matraca, que outrora era muito usada nas igrejas e por guardas noturnos de cidades que já se perderam no tempomúsica po, e uma enorme variedade de tudo.

Gosto de gravar no escuro para acender as luzes interiores

O Campeão conta agora uma interessante passagem ocorrida na Argentina e que tem a ver com sua postura de universalidade. "Fui convidado a participar de um programa em que havia música erudita e música popular. Pra mim essas classificações são despropositais na medida em que eu considero tudo apenas música. Eu não gosto de ouvir bobagem. Então o cara anunciou que eu ia tocar música popular
brasileira. Daí eu perguntei: 'Você toca música na sua rádio?' Aí o cara respondeu que sím e eu completei: 'Pois é, eu vou fazer música. Não sei o que é. Só sei que é música.' Ele pediu desculpa e eu disse que queria total liberdade no estúdio para fazer o programa. Eu me lembro que pedi uns papéis, uns pedaços de plástico que agora eu nem me lembro pra que eram. É o tal negócio da criatividade imediata. Então me deram tudo que eu pedi e me deixaram absolutamente à vontade no estúdio. No final saiu um som tão maravilhoso que eu acabei fazendo três programas. Eu não sei dizer o que aconteceu comigo. Eu fiz um som absorvendo os fluidos do pais em que eu me encontrava. No final o cara virou-se pra mim e falou: 'Mas que som! Até parece aqui de nossa terra!' Então eu perguntei: 'Da nossa terra que você quer dizer é a sua, não é?' Ele disse que sim e eu falei: 'Da sua terra não, bicho, da nossa terra, pois a sua terra é a minha também'!"

Hermeto prefere gravar no escuro, "para acender suas luzes interiores". Quando era criança ficava horas em frente ao espelho tentando encostar o queixo na testa. Como não conseguiu tal proeza aproveitou esse difícil exercício facial e, quando bate a mão sobre o queixo, consegue fazer um som oco e absolutamente original. Outro recurso por ele explorado é o de bater um instrumento contra o outro. Hermeto conta agora uma incrível experiência espiritual que teve com o saxofonista norte americano Cannonball Adderley, ex-integrante do grupo de Miles Davis. Deixemos que ele mesmo conte a história:
"Quando eu estava nos Estados Unidos conheci Cannonball Adderley. Conheci muito superficialmente e jamais estive em sua casa. Não tinha nenhuma afinidade física com ele mas sim uma enorme afinidade espiritual, que constataria mais tarde. Tanto é que sempre quando eu ia para os Estados Unidos, não sei de que forma, ele sempre vinha a mim."

Depois da morte de Cannonball, uma música precisa ser reconhecida pela esposa do artista

Relatando esse caso, Hermeto assume um semblante grave e seus pequeninos olhos brilham de emoção. E prossegue: "No disco dele eu fui convidado pra fazer um arrranjo, na hora, dentro do estúdio, além de ter feito a música. Mas Deus levou Cannonball. No interrvalo da gravação desse disco fomos jantar. No meio do jantar eu parei de comer, pedi um guardanapo grande e pedi para Airto deesenhar as imagens que eu ia recebendo. Tinha que desenhar rápido porque as imagens eram muito rápidas e evanescentes. Na medida em que eu ia recebendo as imagens ia passando para o Airto desenhar. Eu pedi pra ele desenhar uns anjos e o que ele não soubesse desenhar pra escrever as palavras que designavam as imagens que eu recebia. Quando ele terminou os desenhos eu me levantei da mesa e disse: 'Preciso ir para o estúdio agora.' Aí fomos correndo para o estúdio. Chegando lá falei para o técnico: 'Vamos gravar agora. Pelo amor de Deus. Precisamos gravar agora.' Então, quando gravávamos recebi a mensagem de Cannonball Adderley. Depois da gravação ter sido concluída eu mandei a fita para a esposa dele, que ainda estava muito chateada com a perda do marido. Essa música foi enviada através de um amigo do casal. Mas eu recomendei que ele não dissesse nada. Apenas pedi pra ele que mostrasse a música e procurasse saber a reação dela após ouvi-la. No dia da gravação todo mundo chorou; o técnico, os músicos... todos choraram. Todo mundo ficou muito louco. Superhigh. Quando a esposa de Cannonball ouviu a introdução veio instantaneamente na mente dela a imagem do marido. A música chama-se "Cannonball", mas ela não sabia disso. Foi só depois dela ter dito, ao amigo que levara a fita, que aquela música fez com que ela lembrasse do esposo, é que ele contou toda a história. Ela ficou sensibilizadíssima e pediu que ele agradecesse a mim e, como reconhecimento por essa homenagem que eu prestei a ele, mandou o saxofone dele para que eu usasse. Porque antes dela ouvir a música o saxofone seria levado ao museu. Mas eu não quis usar o saxofone porque achei que os americanos iam ficar com ciúmes. Vão pensar que além de eu fazer uma música em homenagem a um cara que eu não conhecia intimamente quis ficar com o saxofone dele. Então, pra evitar mal-entendidos, eu recusei o saxofone." .

Hermeto não sabe quantos disscos já vendeu e nem se preocupa com isso, pois mesmo que procurasse saber nunca saberia ao certo. O que sabe, e tem certeza, é que pelo menos 10 trilhões de pessoas o escutam assiduamente em todos os planetas.

1 de maio de 2009

Terra sem Males na Barra do Una (c. 1973)

Tinha lá seu metro e meio o simpático-cambaleante senhor que nos fazia um convite, intrometendo-se na pergunta que dirigiamos ao dono do boteco. Queríamos acampar num lugar bacana, de preferência retirado do agito da praia. Se não me falha a memória era o único bar da redondeza, logo que descemos da balsa vinda de Bertioga até a Barra do Una. Andávamos bastante a pé. Eu era o mais novo, entre 15 e 16 anos, tinha a Roseli (Baxinha), Paulão, Baby, Elias, Taninha e Magrão (Augusto) o mais velho, com 19 ou 20.
Logo de cara olhamos uns aos outros, tomamos uma poção de pinga para "ajustar o nível" e lá fomos nós.

Ele já ia dizendo que levaria a gente para conhecer o lugar mais lindo que jamais tínhamos pisado em nossas vidas e que pouca gente conhecia ou mesmo saberia como chegar. Sem ele seria certo que nos perdêssemos pelo caminho. Abria um sorriso de poucos dentes, nosso amigo.

Primeiro, falou que gostou dos nossos cabelos. As belas garotas com suas madeixas negras e galegas, aveludadas, eu tinha cabelos abaixo dos ombros, tipo espiga de milho, o Magrão, cabelo liso, louro e escorrido, passava dos ombros também e o Elias e o Paulão, blackpower de arrepiar. Paulão, um moreno de mais de metro e oitenta chamou a atenção do nosso amigo, invocou que ele era "da familia".

Saímos em direção a uma ruela estreita e dali, floresta adentro. Nosso guia esbanjava repertório com palavras muitas vezes difíceis de se entender, mas estávamos encantados com as promessas que ele ia fazendo a medida que a trilha se cobria de árvores, passarinhos, flores e perfumes inebriantes.
Conversa vai, conversa vem e a trilha foi sumindo aos nossos olhos, o papo raleando, o homem quieto, e daqui a pouco atravessamos um riachinho com água pela canela e mais a frente um outro mais fundo, e sobe morro e desce ladeira, e outro riachinho, até que num destes a água bateu na cintura. Atravessamos lentamente com nossas calças jeans, tênis, levantando as mochilas, mas ninguém se atrevia a perguntar nada, pois nosso guia andava firme e, agora, olhava só para a frente. A caminhada não tinha fim.

Horas depois, a paisagem abriu de repente. Antes de começarmos a nos preocupar de verdade, atravessamos um último riachinho que só deu para perceber que tinha água quando botamos o pé, de transparentíssimo que era! Um olhou para o outro e estava nítida a cara de satisfação de
cada um, ainda mais depois que avistamos algumas casas de barro com telhados de palha, num grande bolsão escondido rio do Una acima. Era uma pequena aldeia de índios.

Nosso anfitrião primeiro nos mostrou onde armar nossas barracas, sob olhares de poucas mulheres e crianças muito mais curiosos do que desconfiados, um local meio retirado da aldeia, numa bela clareira à sombra de uma jaqueira imensa. Um olhava para o outro e só ria. Enquanto montávamos nossas barracas, ele desapareceu.

O primeiro contato com uma jaca niguém esquece. Pois fomos eu e o Elias colher aquele imenso fruto amarelo, o mais suculento de todos, mortos de fome, ainda mais depois da caminhada até aqui. Percebemos umas crianças que riam, meio escondidas, mas não demos bola e fomos em
frente com a jaca. Abrir não foi difícil, o pior veio depois com o aumento das risadas e dos olhinhos que nos rodeavam pela clareira afora. Quem disse que alguém conseguia comer? Travava adoidado, eles sabiam!
Não demorou muito e lá vem um guri, com uma jaquinha, quase desmanchando, enviada pelo nosso amigo. Aí é que foi a festa e a meleca na barba do Paulão fez todos rirem pra lá da conta. Que delícia!

Fim do dia, todos desapareceram, acendemos nossa fogueira e veio nosso amigo com um litro de cachaça. Foi então que a história rolou. Ficamos ao redor da fogueira, debaixo de um céu coalhado de estrelas, com os sons da floresta fazendo fundo ao agora revelado cacique, com sua fala pausada e olhar certeiro, abriu o coração mesmo antes do primeiro gole.
O lugar tinha sido uma grande tribo com muita gente, até que chegou a Funai. Trouxeram doenças, violentaram meninas e mulheres, e, antes que tudo acabasse definitivamente, ele, nosso amigo, o próprio cacique, mandou que todos fossem embora dali. Ele, não, morreria no lugar se fosse preciso.

Nesse instante ele começa a chorar feito criança, soluça e fica difícil para a gente não conter a emoção diante daquela pessoa tão gentil, aberta, simples, que contava, entre soluços, como eram felizes antigamente, naquele lugar encantado. Fala dos costumes, dos peixes pescados em balaios, da mandioca, de cantorias, danças e da alegria de viver, onde tudo era de todos, ninguém era dono de nada.

Tinha uma saudade no peito, irreparável, apesar de dizer que agora, graças ao cunhado que insistiu em ficar, a aldeia até crescia um pouco, devagarinho, mas a cachaça era um mal incurável, ele sabia mas precisava para ajudar a "esquecer". A morte rondava sua alma, amargurada pela lembrança dos seus familiares enterrados ali, ou, agora sabe-se lá onde, se vivos e como, expulsos por "essa gente da Funai". Disso ele tinha certeza.

Passamos alguns dias maravilhados entre pequenas plantações de milho, mandioca, banana, palmito, muita água transparentíssima, algumas poucas mulheres que corriam da gente e não sabiam falar uma palavra em português, assim como crianças sempre nuas, escondendo-se dentro de casa, no meio da roça, espreitando a novidade.

No segundo dia veio nos fazer um convite, queria que morássemos ali. Lembro de um arrepio na espinha que poucas vezes senti na vida, mas que as meninas em primeiro lugar já disseram que não, que tinham suas famílias, seus pais, parentes e que poderiam visitá-lo quando fosse possível. Morar? De jeito nenhum. Estavam com um pouco de medo, afinal, se ele quisesse nos deixaria ali, pois voltar, como?

Passou tudo muito rápido, nos levou para o mesmo boteco, pediu uma pinguinha, abraçou um por um, deu meia volta e sumiu.

Nunca mais retornei, "puxado" ao Sul do Brasil, onde vivo até hoje. Acho que os espíritos que conheci sempre apontaram para um outro caminho, na beirada... ao mesmo tempo que estou no meio da floresta, também tenho carro, internet, computador, tecnologia, coisas de branco que convivem com coisas de índio, entre as mais belas, os sonhos e saudades.

Um dia gostaria de voltar na Barra do Una e ver que eles ainda estão lá. Seria como ter a certeza de que o mundo tem jeito, sim, mesmo com gente querendo violentar nosso sonho.

22 de abril de 2009

Não meta a sua cabeça na areia


Adaptação às mudanças climáticas significa adaptação à água. O recado é bem claro no estudo Don’t Stick Your Head in the Sand!, produzido por um consórcio formado pelo Conselho Mundial da Água, IUCN, Co-operative Programme on Water and Climate e International Water Association. Isto porque a água (ou a falta dela) media todas as vulnerabilidades ligadas ao clima, como secas severas, evaporação excessiva, derretimento de geleiras, aumento do nível do mar, tempestades, furacões e inundações.

Eureca! O homem descobre que é 70% água

Quando li o título do estudo feito pela essa gente daí de cima, petrifiquei de prazer. É como se o homem estivesse redescobrindo a roda, quer dizer, a segunda roda. Imediatamente lembrei da foto que colei neste texto, a coitada da lagartixa que grudou no tijolo.


A lagartixa grudada na parede

Nessa época eu morava no Campeche numa construção que levantei aos pés do Morro do Urubu. Começou que não tinha coleta de lixo, aí inventei o Lixo Zero, por óbvia associação de ideias: a coisa só virava porcaria depois de misturada. Mas isso é uma outra história, no momento o papo é com a seca.

Lá também não tinha Casan, aí furamos um poço e não tinha tratamento de esgoto e inventamos o filtro de raízes e as plantas ao redor voltaram a crescer, mesmo no meio da areia. Um sistema bem simples coletava as águas cinzas (tanque, pia, banho) num pequeno reservatório e daí saía uma mangueira que era mudada de tanto em tanto para uma nova cova, onde havia uma muda de árvore nativa.
Logo apareceu uma pequena floresta ao redor de casa, no que antes era apenas um monte de areia esturricada pelo uso intensivo para plantio de aipim com queimada.

Vingaram espinheiras, as benditas vassouras, capororocas, aroeiras e muito passarinho, graxaim, tucano, gralha-azul descia o morro para conferir aquele pedaço de terra onde já se via verde, sombra, umidade.
Muito calo, principalmente na ideia, fez com que aquele comoro de areia virasse um belo jardim, inclusive com a vizinhança aderindo ao sistema. Aí, a coisa cresceu de tal maneira que ficou bacana. Não foi à força de lei, códigos ou fiscais, foi pela iniciativa de cada um, de ver que no vizinho dava certo, então vamos fazer também e dava mais certo ainda porque havia a assessoria de quem ralou primeiro e passou adiante...

Certo dia, a imprensa publica que o Plano Diretor da Capital previa o crescimento urbano para o lado do Campeche e um tal prefeito chegou a confirmar o que o plano havia mirabolado: 450mil habitantes estariam sendo direcionados para lá. Só para se ter uma ideia do absurdo, na época, era a população total da Grande Florianopolis que os caras do Ipuf (Instituto de Planejamento Urbano) planejariam enfiar no Campeche. Pode?!

E deu reunião, criação do jornal Fala Campeche, Rádio Comunitária, movimento contra o lixo, saneamento, até descobrirem que o abastecimento de água daria, quanto muito, para abastecer 10mil habitantes.


Mas as maquetes foram apresentadas, inclusive com uma malha viária incrível! Uma super-via-rápida contornando o Morro do Urubu, passando dentro da floresta que nós criamos, outra por cima das dunas do Campeche, chamaria-se interpraias; um cartódromo na cabeceira do aeroporto e um big shopping no "inútil" campo de pouso do Saint-Exuperi. Manhattan era a meta da gestão, que chegou a propor, em público, a dessalinização para abastecimento, o que contornaria o problema dos "só" 10mil com água.


Nessa altura da conversa, você deve estar pensando: o cara é louco, está inventando tudo, é ficção... Creia, estou sendo sincero, participei de reuniões, fiz o Fala Campeche, vivi a coisa na pele no final dos anos 90, e ainda hoje querem tudo isso! E só não fazem porque não está dando tempo, a galera está tomando tudo de qualquer jeito, a Ilha está cada vez mais inviável, com carro espirrando para tudo que é lado, quer dizer, entupindo tudo, porque jamais os administradores trataram a Ilha como ilha, ou seja, um pedaço de terra com água por todos os lados.


A lagartixa, coitada, esperava seu lanchinho com muita paciência; a aranha ia na direção certa e nada provava o contrário, seria farta a refeição. Por um momento tudo ficou claro, a natureza dava mais um passo e a cadeia alimentar estaria sendo cumprida, não fosse a bobeira de um segundo que chupou a pele da barriga da coitada e grudou na foto.


Moral da história: Se você esquecer que é água, gruda.

14 de fevereiro de 2009

O filho do vento e da chuva

Na primeira vez em que vimos um ninho de Tecelão estavamos a mais ou menos um quilômetro Rio das Furnas acima, próximos da Cachoeira da Garganta. Sobre as corredeiras e rios, onde as imensas árvores da mata ciliar fornecem abrigo e sombra, o Tecelão constrói a sua obra com crina vegetal negra (hifas do cogumelo Marasmius) ou barba-de-velho (Tillandsia usneoides), com a precisão de uma máquina! Tece um ninho solitário, ao contrário de seu parente, o Xexéu, que nidifica em colônias. Naquela primeira vez, observamos dois ninhos, um ao lado do outro, nada de passarinho. Esta foto é recente e foi tirada depois de vários dias na espera. Ficamos impressionados com a maleabilidade e a agilidade com que o Tecelão entrava e saía pela pequena abertura superior de sua bolsa, muitas vezes com ventos fortes que inclinavam o ninho na horizontal! Foram vários dias de observação, de um lugar privilegiado -talvez construído de propósito?-, acima de uma pequena piscina, onde a Trilha da Ilha emenda com o Rio das Furnas. Segundo Helmut Sick, os ventos fortes derrubam o ninho contendo ovos ou filhotes. Há casos em que os pais continuam a alimentar seus filhotes no ninho caído. Também podem ser destruídos por chuvas pesadas, importante fator-limite da época de nidificação.
Normalmente é a fêmea que se encarrega da construção do ninho e dos cuidados aos filhotes. Também são polígamos, o que justifica os outros dois Tecelões que observamos nas proximidades deste ninho. Entre os saqueadores de ninhos do Tecelão estão as cobras, macacos, tucanos,
araçaris e o Gavião-carijó (Rupornis Magnirostris). As vezes podemos encontrar estes ninhos construídos perto de abelhas e vespas, o que é uma defesa para o Tecelão e originou uma lenda.
Os Xexéus tinham inimigos que quebravam seus ovos e matavam seus filhotes quando eles saiam em busca de alimento. Solicitaram às vespas que fossem madrinhas dos seus filhos e assim as vespas construiram sua casa perto dos ninhos dessas aves para velar pelos filhotes.

Da janela de casa, já bem distante do maravilhoso ninho, temos observado, diariamente, um filhote de Tecelão ser alimentado. Seria o mesmo que nasceu em cima do Rio das Furnas?