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22 de abril de 2009

Não meta a sua cabeça na areia


Adaptação às mudanças climáticas significa adaptação à água. O recado é bem claro no estudo Don’t Stick Your Head in the Sand!, produzido por um consórcio formado pelo Conselho Mundial da Água, IUCN, Co-operative Programme on Water and Climate e International Water Association. Isto porque a água (ou a falta dela) media todas as vulnerabilidades ligadas ao clima, como secas severas, evaporação excessiva, derretimento de geleiras, aumento do nível do mar, tempestades, furacões e inundações.

Eureca! O homem descobre que é 70% água

Quando li o título do estudo feito pela essa gente daí de cima, petrifiquei de prazer. É como se o homem estivesse redescobrindo a roda, quer dizer, a segunda roda. Imediatamente lembrei da foto que colei neste texto, a coitada da lagartixa que grudou no tijolo.


A lagartixa grudada na parede

Nessa época eu morava no Campeche numa construção que levantei aos pés do Morro do Urubu. Começou que não tinha coleta de lixo, aí inventei o Lixo Zero, por óbvia associação de ideias: a coisa só virava porcaria depois de misturada. Mas isso é uma outra história, no momento o papo é com a seca.

Lá também não tinha Casan, aí furamos um poço e não tinha tratamento de esgoto e inventamos o filtro de raízes e as plantas ao redor voltaram a crescer, mesmo no meio da areia. Um sistema bem simples coletava as águas cinzas (tanque, pia, banho) num pequeno reservatório e daí saía uma mangueira que era mudada de tanto em tanto para uma nova cova, onde havia uma muda de árvore nativa.
Logo apareceu uma pequena floresta ao redor de casa, no que antes era apenas um monte de areia esturricada pelo uso intensivo para plantio de aipim com queimada.

Vingaram espinheiras, as benditas vassouras, capororocas, aroeiras e muito passarinho, graxaim, tucano, gralha-azul descia o morro para conferir aquele pedaço de terra onde já se via verde, sombra, umidade.
Muito calo, principalmente na ideia, fez com que aquele comoro de areia virasse um belo jardim, inclusive com a vizinhança aderindo ao sistema. Aí, a coisa cresceu de tal maneira que ficou bacana. Não foi à força de lei, códigos ou fiscais, foi pela iniciativa de cada um, de ver que no vizinho dava certo, então vamos fazer também e dava mais certo ainda porque havia a assessoria de quem ralou primeiro e passou adiante...

Certo dia, a imprensa publica que o Plano Diretor da Capital previa o crescimento urbano para o lado do Campeche e um tal prefeito chegou a confirmar o que o plano havia mirabolado: 450mil habitantes estariam sendo direcionados para lá. Só para se ter uma ideia do absurdo, na época, era a população total da Grande Florianopolis que os caras do Ipuf (Instituto de Planejamento Urbano) planejariam enfiar no Campeche. Pode?!

E deu reunião, criação do jornal Fala Campeche, Rádio Comunitária, movimento contra o lixo, saneamento, até descobrirem que o abastecimento de água daria, quanto muito, para abastecer 10mil habitantes.


Mas as maquetes foram apresentadas, inclusive com uma malha viária incrível! Uma super-via-rápida contornando o Morro do Urubu, passando dentro da floresta que nós criamos, outra por cima das dunas do Campeche, chamaria-se interpraias; um cartódromo na cabeceira do aeroporto e um big shopping no "inútil" campo de pouso do Saint-Exuperi. Manhattan era a meta da gestão, que chegou a propor, em público, a dessalinização para abastecimento, o que contornaria o problema dos "só" 10mil com água.


Nessa altura da conversa, você deve estar pensando: o cara é louco, está inventando tudo, é ficção... Creia, estou sendo sincero, participei de reuniões, fiz o Fala Campeche, vivi a coisa na pele no final dos anos 90, e ainda hoje querem tudo isso! E só não fazem porque não está dando tempo, a galera está tomando tudo de qualquer jeito, a Ilha está cada vez mais inviável, com carro espirrando para tudo que é lado, quer dizer, entupindo tudo, porque jamais os administradores trataram a Ilha como ilha, ou seja, um pedaço de terra com água por todos os lados.


A lagartixa, coitada, esperava seu lanchinho com muita paciência; a aranha ia na direção certa e nada provava o contrário, seria farta a refeição. Por um momento tudo ficou claro, a natureza dava mais um passo e a cadeia alimentar estaria sendo cumprida, não fosse a bobeira de um segundo que chupou a pele da barriga da coitada e grudou na foto.


Moral da história: Se você esquecer que é água, gruda.

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