Páginas

1 de agosto de 2009

Entrevista com Hermeto Pascoal



Por: Carlos Roque
Fotos: Cristina Villares para a Revista Planeta/115 de abril de 82, gentilmente cedida por Graciela Kruscinski.

Som total e magia branca

Canceriano de Arapiraca (Alagoas), seis filhos e uma única esposa, 45 anos de idade e 38 de iniciação musical, autoproclamado "cidadão do mundo", Hermeto Paschoal é hoje uma das mais perfeitas sínteses entre o conhecimento teórico musical e a expansão intuitiva da mente através da magia dos sons. Depois de cinco álbuns gravados (três aqui e dois nos EUA) e "duelado" com os mais competentes, sofisticados e simples músicos da Terra, além de parcerias com outros animais (organizadíssimas orquestras de sapos, porcos talentosos e outros bichos), ele fala a Planeta sua experiência como músico, místico e telepata, da mente em turbilhão.

De todas as formas existentes e conhecidas de arte, a música parece ser a forma de expressão que mais comporta e traz em si mesma a magia e o mistério da emoção imediata, forma esta detectada pelas antenas mais sensíveis, talvez por tocar de uma maneira mais aguda os centros emocionais dos seres. Hermeto Paschoal, considerado pela crítica especializada como um dos melhores e mais criativos músicos do mundo, é o que poderia ser chamado de um músico instantâneo. Respira e exala música pelos poros, voz, toques, narinas, olhos, expressões.

Nos encontramos numa tarde em que chovia densamente, no Estúdio de Arte Fotográfica Preto&Branco, no coração de Sampa, alguns dias após a estréia, no Teatro da Universidade Católica, do espetáculo "Brasil Universo", onde Hermeto e sua banda, composta por magníficos e virtuosíssimos músicos, deram uma mostra da atual fase do inquietante e controvertido trabalho hermetiano. Sandálias de couro, chapéu de palha estilo panamenho, enormes cabelos brancos puxados para trás, óculos semiescuros, bata cor de açafrão com bordados delicados. Sua personalidade lembra, à primeira vista, um gnomo em proporções humanas. Parece um personagem extraído do Livro das Fábulas, de Hermann Hesse. Indubitavelmente Hermeto é um bruxo do Bem - naturalmente -, como o Don Juan de Carlos Castañeda. Aos 45 anos de idade, natural de Lagos da Canoa, município de Arapiraca, Alagoas, teve suas primeiras experiências musicais aos 7 anos de idade, quando abraçava-se à harmônica de oito baixos que seu pai, após tocá-la, deixava sobre a cama.


Depois de urna breve familiarização com o instrumento, ele e seu irmão, José Neto, tocavam para seu pai ouvir. Desde então não parou mais. Tido como mestre por músicos do quilate de John McLaughlin (ex-integrante do grupo Mahavishnu Orcuestra e considerado pela crítica especializada como o guitarrista mais ágil do jazz) ou do tecladista Crick Corea, Hermeto já foi alvo de calorosos e arrebatadores elogios como os que recebeu de Claude Nobs, organizador do Festival de Jazz de Montreux, que o considera um dos maiores jazzman do mundo. Hermeto jamais estudou música formalmente. Quer seja em conservatório ou através de aulas particulares. Aprendeu tudo sozinho. Sua voz é baixinha, pausada e cálida. Ele diz assim:
"A música acontece comigo de uma maneira intuitiva. Eu tenho uma maneira toda minha de escrever música. É um trabalho que venho desenvolvendo ao longo de todos esses anos e que futuramente pretendo editar. Por não ter tido professor eu criei uma nova maneira de escrever música.
Meu professor chama-se Mundo. Esse é o meu professor. Eu acho que a música só é convencional quando a gente não cria. O negócio é intercalar as coisas. São como as cores; tudo depende do gosto das pessoas. Então eu pego as notas musicais e simplesmente jogo com elas. Eu conheço todas as claves e todos os instrumentos. Eu escrevo pra sinfônica, banda, coro e pra qualquer tipo de orquestra."


Um pedaço de pau tem a mesma importância do saxofone

Hermeto estabelece com a música uma relação cromática. Seu universo musical parece ser grávido de cores. Ele mesmo explica-se: "Da mesma maneira que um pintor pinta um quadro eu posso compor. Tudo isso porque eu já tenho os sons na mente. Posso tocar piano imaginando um piano. Eu não sinto falta de instruumento."

Ele não tem idéia de quantos instrumentos toca. Ao que se sabe, Hermeto é um multiinstrumentista. Toca piano, órgão, harmônio, bateria, clarinetes, triângulos, violão, cavaquinho, flautins, sax-soprano, flautas, pedal de órgão, tamborim, surdo, saxofones, etc., faz dueto com sapos, grilos e porcos, além dos instrumentos por ele inventados, como a bacia e as garrafas d'água. Ele explica como vê um instrumento musical:
"Cada vez que eu pego um instruumento eu sinto que nunca é igual. Eu sinto como se fosse um outro instrumento. A mesma importânncia que dou a um saxofone eu dou a um pedaço de pau. Porque com um pedaço de pau eu faço um som tão importante quanto eu faço num saxofone, piano ou qualquer outro instrumento."

Paschoal diz que toda pessoa faz música. Mesmo sem o saber. Exemplifica esse conceito da seguinte maneira: "Quando alguém pega uma panelinha, põe um ovo pra fritar... você já ouviu que som lindo é um ovo fritando? Pra mim todas as pessoas são grandes percussionistas. Só que muitas são percussionistas inconscientes. Por exemplo: você tá na cozinha e escuta a pessoa dizer: 'O Fulano, me traz aqui a colher de pau!"

Para Hermeto, todos esses detalhes do cotidiano ganham conotações musicais. Assim sendo, ele in-. terpreta a frase acima musicalmente e é uma pena que no texto, se já é impossível traduzir a beleza com que Hermeto cantou: "Oh Fulano, me traz aqui a colher de pau."

Usa a imaginação para criar sons e simplesmente os concebe, através dele. Instantaneamente. Ele diz assim: "Pra mim tudo é música e a música é tudo." Trata-se de um artista do signo de Câncer, filho da Lua, das águas, Mãe da Terra. Perguntado se acredita em Astrologia, responde:

"Eu acredito em tudo, desde que seja feito com muita seriedade, estudo e muito respeito. Eu acho a Astrologia uma coisa seriíssima Mas tem muita brincadeira nisso tudo. Como também tem muita brincadeira em cima da música.

"Brincadeira", aqui, tem o sentido de irresponsabilidade e consumismo maquinal caótico. A música habita o universo hermetiano de forma absolutamente intuitiva. Coisa de Mago. Alquimista de sons, um médium-telepata em potencial integral e ativo. Se considera um receptador do universo. Verdadeiro radar de sonoridades. Sobre sua descendência diz assim:

"Minha descendência é de raça mundial. Minha mente anda tão rápida, numa velocidade tão vertiginosa, que eu não consigo distinguir diferença de um lugar pra ouutro. Eu já perguntei para os meus pais sobre isso, mas eles também não sabem. Acho que todo mundo é descontente de todo mundo."

Casado, pai de seis filhos, um deles apresentou desejos de aprennder música e Hermeto disse que lhe arrumaria um professor. Como resposta ouviu do filho: "Meu professor tem que ser o senhor."


Posso reger tanto uma orquestra de sapos quanto uma filarmônica

Chamado carinhosamente pelo apelido de "Campeão", ele é o principal personagem do filme curta-metragem que leva no título o seu nome e seu apelido: "Hermeto, o Campeão". Nesta fita, que brevemente será lançada através de uma emissora de televisão brasileira, há uma seqüência verdadeiramente maravilhosa onde Hermeto, tocando flautim na beira de uma lagoa, estabelece uma incrível sinfonia com uma orquestra de sapos que cantavam no mesmo tom emitido por seus instrumentos. Teve uma hora que, diante da sonoridade coletiva dos sapos, teve que dar tudo de si para que a harmonia musical conseguida no início da experiência não se desvanecesse, tamanha a variedade de rítmos e sons emitidos pelos sapos. Paschoal tem uma sensibilidade musical tão aguda que conseguiu distinguir entre todos os sapos "um que tinha a voz mais alta e sonora e que deveria ser o maestro".

Hermeto trabalhou na Rádio Difusora de Caruaru (PE) e tocou na feira dessa mesma cidade além de peregrinar por várias regiões do Nordeste; das caatingas às feiras populares. Mais tarde, já em São Paulo, sentava nos degraus da escada da Igreja da Consolação, de noite, e fazia um som. Tocou também muitas vezes nas boates paulistas. Suas aparições em televisão se deram em meados dos anos 60, na época dos festivais de música que ele gosta muito "pela oportunidade que dão aos músicos de mostrarem seus trabalhos".

Ele acha que o músico é um mágico. Mas faz questão de frisar: "Mas nem todo mágico é um músico. Porque há determinadas pessoas que já nascem com o dom da música. Então é preciso que esse dom seja lapidado, desenvolvido. Cada pessoa nasce com um dom específico. Esse negócio da gente querer agradar as pessoas e dizer que todo mundo é inteligente, tem um mesmo nível ... eu acho errado. É claro que ninguém tem culpa, mas existem determinadas pessoas que assimilam as coisas com muito mais facilidade. Modéstia à parte, eu sou uma delas." Ele lembra uma passagem muito interessante ocorrida em Berlim, durante um Festival no qual participou, onde fazia um número tocando flauta. Momentos antes de entrar em cena, ocorreu-lhe a idéia de pegar uma flauta, que parece uma bengala, e introduziu dentro da mesma uma outra flauta de bambu. Hermeto já tinha ouvido falar que na "terra de Beeethoven" havia um público muite exigente, mas, como sempre, achou que não há diferença de público, seja europeu ou hindu. Entrou em cena como se estivesse em qualquer teatro brasileiro.


O telepata que viaja com os sons no plano astral

Vamos agora ouvir o desfecho dessa história através do próprio Hermeto: "Aí eu pensei assim: 'Quando eu for tocar não vai sair nada, nem uma nota.' Fiz uma expressão como se estivesse apavorado. Bicho, quando eu soprei e não saía nada eu ouvia o sussurro do público alemão que parecia uma porção de abelhas, como a dizer assim: 'Coitado, coitado do rapaz ... que vexame: Eu escutava tudo, não pelas palavras, mas sim pelas vibrações mentais que eu captava das pessoas que estavam me vendo. Na verdade o som não é importante. O que ocorreu é que eu sabia o que elas falavam entre si. Quando eu atingi o máxino do desespero possível na platéia e também pra efeito de um impacto maior, eu inclinei a flauta um pouco e de dentro da flauta maior foi saindo, aos pouquinhos, a flauta de bambu. O teatro, quase caiu. Na hora me veio o pensamento que aquilo era magia pura. Naquele momento eu agradecia ao Ser Maior, ao Infinito por eu ter tido a idéia de me comunicar com o público de uma maneira tão mágica e tão sublime e que serviu de introdução para a música que eu ia tocar. Então eu peguei a flauta de bambu, pus a flauta maior no chão, e fiz um solo maravilhoso que arrasou com tudo."

A magia faz parte integrante não só do seu trabalho, mas tammbém da sua própria vida. Ele conta agora uma incrível experiência transcendental ocorrida num teatro de São Paulo. "Uma vez eu tocava piano num show e comecei, repentinamente, a ver uma porção de coisas. O que eu vou falar pode dar a impressão de que são coisas assombrosas, mas não são não. Eu via aranhas, um negócio assim, tudo misturado, e eu vendo aquilo imediatamente fui levando o piano comigo, tocando sem parar e o piano indo embora comigo e eu indo embora com o piano até que eu passei do palco com piano e tudo e caí lá embaixo, no chão. Foi uma sensação tão maravilhosa que não tem expressão que possa definir. "

Meu choro é interior. Para mim não existe a tristeza

Outra experiência transcendenntal ocorreria no mesmo teatro naquela mesma noite. "Enquanto eu tocava. falecia no Rio de Janeiro um irmão meu. Eu senti isso na hora e parei o show. Isso que eu vou contar não é triste não. É alegre. Daí eu disse: "Um momento que tá rolando um negócio aqui. Aí respirei fundo e imediatamente veio em minha mente a imagem do meu irmão. Recebi a mensagem dele, toquei e terminei o show. Mais tarde, quando cheguei em casa. já de madrugada, minha mãe me telefonou participando a morte de meu irmão. Daí eu resspondi: 'Eu já sabia, mãe: Mesmo tocando eu já sabia. Dediquei a ele tudo de maravilhoso através da música."

Os conceitos hermetianos são repletos de magicismo, imaginação e sonho. Sobre os sonhos ele diz: "Tudo que eu sei aprendi sonhando. Aprendi a tocar sonhando, aprendi música sonhando. Eu sou consciente. Da mesma forma que eu recebo eu envio mensagens. Eu tenho esse poder. Mas que fique bem claro que eu não sou robô 'deles' não. 'Eles' me dão o poder de exigir. Eu não estudo nada, na minha casa eu tenho meus pontos e só de olhar pra eles eu sei se vai chover ou não. Tudo comigo acontece através da música e da intuição, que realmente é a coisa mais séria que existe."

Hermeto chegou a concluir o terceiro ano primário. Tem, ao todo, cinco álbuns gravados, dos quais dois nos EUA e três no Brasil. Ele fala como nasceu o LP Zabumbê-Bum-A que, como diz o título, é o tocador de zabumba que fica bêbado e exclama um ah. "Esse disco eu fiz praticamente na estrada e no estúdio. Eu não queria saber o que ia tocar nem o que ia gravar." A canção "Mestre Mará," por exemplo, que aliás faz parte do LP Zabumbê-Bum-A, foi composta na avenida Brasil e concluída no estúdio. Hermeto diz ter "recebido", a caminho do estúdio de gravação, uma insólita mensagem de uma personalidade que ele denominou de Mestre Mará.

Hermeto diz que não consegue chorar. Seu choro é interior. Pra ele a tristeza não existe. Mas tem horas que sente um estranho embargo na voz, o famoso nó na garganta. Sua visão de mundo é neutralista e singularizada. Diz que quem faz o mundo somos nós mesmos e que parar pra analisá-lo é não conseguir nada. "Enquanto nós pensamos as coisas rolam e o importante é que estejamos todos unidos. Pensar juntos é melhor que pensar separados."

Um de seus discos chama-se Cérebro Magnético. A capa deste LP é um desenho concebido pelo próprio Hermeto, onde procura retratar seu cérebro. Na contracapa desse disco ele diz que o cérebro é apenas uma massa encefálica receptora da mente. "Percebi que somente cada um de nós pode fotografar sua própria mente. Então resolvi desenhar o que fotografei da minha mente, que é a capa desse LP."

Praticante de vários exercícios mentais, ele diz que se quisesse ficar rico abriria uma academia para ensinar esses exercícios. Mas como essa realmente não é a dele, prefere ficar na música mesmo. "O que é que adianta eu ficar rico? Pra depois morrer do coração e ainda por cima frustrado?"

Ensina alguns exercícios que pratica e que, para ele, funcionam como uma espécie de relaxamento meditativo-contemplativo e, ao mesmo tempo, como exercícios ideais para a expansão da consciência.

Exercícios e práticas para ativar a terceira visão

Um dos exercícios mais praticados por ele consiste em fechar os olhos, exercendo leve pressão sobre as pálpebras com as pontas dos dedos, e relaxar. Hermeto diz que quando pratica o exercício consegue ver coisas e cores maravilhosas. Aponta para minha blusa de lã colorida e diz que as cores da blusa são "mais ou menos" se comparadas com as cores que consegue vislumbrar quando pratica esse exercício. Não raro, no auge desses exercícios, pintam temas musicais. E então vai correndo pegar um dos instrumentos dispostos caoticamente sobre sua cama e compõe uma canção com os olhos fechados.

E também desenha, não obstante o fato de quando está em transe - vamos dizer assim - não conseguir as cores como as que vê, "pois são cores sublimes, mas como diz o ditado: 'Quem não tem cão caça com gato'."

Hermeto vê o que quer. Numa simples cortina ou numa poça d'água consegue vislumbrar as mais belas imagens. Nos shows que dá consegue ver até arco-íris no meio da platéia. Por esses relatos incríveis dá pra perceber, nitidamente, que Hermeto é uma criatura que - como diria Friedrich Nietzsche - está acima do Bem e do Mal. Simplesmente é portador da terceira visão, que nele parece ser altamente desenvolvida.

À semelhança do Don Juan de Castaneda, Hermeto não olha simplesmente para as pessoas ou para as coisas. Ele "vê" as coisas com seu "olho especial", fato que para ele é normal. Me arrisco a falar que ele consegue "ver" tudo isso porque tem olhos de feiticeiro. Ele retruca e diz que o termo "feiticeiro" é muito confundido e que nada tem a ver com algo demoníaco. Diz ser freqüenntemente visitado, em sonhos, por seres que o ajudam a solucionar, quando ocorre, alguma dificuldade no seu trabalho musical. Depois do problema resolvido entra num processo altamente angustiante, no sentido de tentar identificar esses seres ou entidades espirituais que o ajudam. Mas por mais que queira, não consegue saber quem o ensinou. Para isso ele tem uma explicação: "O que acontece é que a 'pessoa' não quer se identificar. Quando comecei a aprender música eu só distinguia as notas através do processo em que eu classificava as notas pretas e as notas brancas. Quando eu passei do oito baixos para o acordeon eu me lembro que sonhei que as notas pretas tinham um som diferente do som das notas brancas. Tive um sonho bastante inquieto. Me levantei, fui para o acordeon e os sons das notas pretas eram exatamente os sons que em sonho eu ouvi."


A arte no reino animal: dois porcos no Bel Canto

No começo dos anos 70 Hermeto grava seu primeiro disco: A Música Livre de Hermeto Paschoal. Sua primeira viagem ao Exterior foi para compor e arranjar músicas para o percussionista brasileiro Airto Moreira e para a cantora Flora Purim. Desde então vem solidificando seu nome no mercado internacional do disco e cada vez tem recebido mais proopostas para trabalhar no Exterior, principalmente nos Estados Unidos e na Europa. Já tocou com alguns dos maiores nomes - só para citar alguns - do jazz, como Airto Moreira, Miles Davis, Ron Carrter, Chick Corea, John McLaughhlin, entre outros. Hermeto conta agora a já histórica e mítica ocasião em que levou dois porcos num estúdio de gravação norte americana.

"Eu já tinha tentado fazer esse trabalho aqui no Brasil, mas infelizmente as pessoas ficaram com medo. Todo artista inovador, quando sugere ou vem com algo que foge dos padrões tidos como convencionais, é erroneamente alcunhado de maluco. Meu lance com os porcos foi justamente para registrar o som que esses animaizinhos emitem. Muitas pessoas tentavam imitar o som do porco, do cachorro, enfim, o som dos animais de uma maneira que eu constatava. Pegavam plástico, essas coisas industrializadas, para tentar imitar o som dos animais. Então eu sempre achei que o animal, que
é tão pequeno, poderia ser levado para o estúdio e assim fazer um trabalho fiel no sentido de reproduzir o som que eles emitem de uma maneira muito mais bonita do que um som artificial. Aqui, infelizmente, não consegui fazer esse trabalho, mas nos Estados Unidos, onde sou muito respeitado, fiz com a maior facilidade do mundo. As pessoas logo ficaram por demais curiosas e prontamente liberaram o estúdio. Conseguimos arrumar dois porcos de estimação mas tivemos que levar os donos dos porcos, pois eles ficaram muito intrigados pensando assim: 'O que será que vai acontecer? Será que ele vai maltratar os bichinhos?' Então fomos todos para o estúdio. Chegando lá eu disse asssim para o Airto: 'Airto, eu vou lá pra mesa de som e você fica com os dois porcos. Quando eu pedir para você levantar o número 1, que tem a voz mais grave, você simplesmente levanta o bichinho; quando eu pedir pra você levantar o número 2, que tem a voz mais aguda, você faz a mesma coisa.' E assim foi feito. Gravamos a voz de cada porco em canais separados. No final todo mundo ficou contente, porque ficou uma gravação maravilhosa. Aliás, essa música chama-se "Missa dos Escravos" e foi concebida na hora da gravação, muito embora eu já tivesse o tema em mente e que era o de uma missa sendo celebrada dentro da mata e os porquinhos andando em volta."

Para ele o Brasil é o país mais criativo e o maior celeiro musical do planeta. Hermeto não ambiciona a riqueza nem a glória: "Quero ficar rico, cada vez mais rico, só que em notas musicais."

Além de músico espetacular, é também inventor de originais instrurnentos, como as garrafas d'água e os serravelhos, outro instrumento criado por ele, que é uma tábua parecida com uma hélice, com um orifício na ponta superior. Rodando essa tábua, que difere em espessura para efeitos de novos acordes, Hermeto consegue extrair sons maravilhosos, muito parecidos com as ventanias que prenunciam tempestades. Além desses instrumentos, Hermeto utiliza a matraca, que outrora era muito usada nas igrejas e por guardas noturnos de cidades que já se perderam no tempomúsica po, e uma enorme variedade de tudo.

Gosto de gravar no escuro para acender as luzes interiores

O Campeão conta agora uma interessante passagem ocorrida na Argentina e que tem a ver com sua postura de universalidade. "Fui convidado a participar de um programa em que havia música erudita e música popular. Pra mim essas classificações são despropositais na medida em que eu considero tudo apenas música. Eu não gosto de ouvir bobagem. Então o cara anunciou que eu ia tocar música popular
brasileira. Daí eu perguntei: 'Você toca música na sua rádio?' Aí o cara respondeu que sím e eu completei: 'Pois é, eu vou fazer música. Não sei o que é. Só sei que é música.' Ele pediu desculpa e eu disse que queria total liberdade no estúdio para fazer o programa. Eu me lembro que pedi uns papéis, uns pedaços de plástico que agora eu nem me lembro pra que eram. É o tal negócio da criatividade imediata. Então me deram tudo que eu pedi e me deixaram absolutamente à vontade no estúdio. No final saiu um som tão maravilhoso que eu acabei fazendo três programas. Eu não sei dizer o que aconteceu comigo. Eu fiz um som absorvendo os fluidos do pais em que eu me encontrava. No final o cara virou-se pra mim e falou: 'Mas que som! Até parece aqui de nossa terra!' Então eu perguntei: 'Da nossa terra que você quer dizer é a sua, não é?' Ele disse que sim e eu falei: 'Da sua terra não, bicho, da nossa terra, pois a sua terra é a minha também'!"

Hermeto prefere gravar no escuro, "para acender suas luzes interiores". Quando era criança ficava horas em frente ao espelho tentando encostar o queixo na testa. Como não conseguiu tal proeza aproveitou esse difícil exercício facial e, quando bate a mão sobre o queixo, consegue fazer um som oco e absolutamente original. Outro recurso por ele explorado é o de bater um instrumento contra o outro. Hermeto conta agora uma incrível experiência espiritual que teve com o saxofonista norte americano Cannonball Adderley, ex-integrante do grupo de Miles Davis. Deixemos que ele mesmo conte a história:
"Quando eu estava nos Estados Unidos conheci Cannonball Adderley. Conheci muito superficialmente e jamais estive em sua casa. Não tinha nenhuma afinidade física com ele mas sim uma enorme afinidade espiritual, que constataria mais tarde. Tanto é que sempre quando eu ia para os Estados Unidos, não sei de que forma, ele sempre vinha a mim."

Depois da morte de Cannonball, uma música precisa ser reconhecida pela esposa do artista

Relatando esse caso, Hermeto assume um semblante grave e seus pequeninos olhos brilham de emoção. E prossegue: "No disco dele eu fui convidado pra fazer um arrranjo, na hora, dentro do estúdio, além de ter feito a música. Mas Deus levou Cannonball. No interrvalo da gravação desse disco fomos jantar. No meio do jantar eu parei de comer, pedi um guardanapo grande e pedi para Airto deesenhar as imagens que eu ia recebendo. Tinha que desenhar rápido porque as imagens eram muito rápidas e evanescentes. Na medida em que eu ia recebendo as imagens ia passando para o Airto desenhar. Eu pedi pra ele desenhar uns anjos e o que ele não soubesse desenhar pra escrever as palavras que designavam as imagens que eu recebia. Quando ele terminou os desenhos eu me levantei da mesa e disse: 'Preciso ir para o estúdio agora.' Aí fomos correndo para o estúdio. Chegando lá falei para o técnico: 'Vamos gravar agora. Pelo amor de Deus. Precisamos gravar agora.' Então, quando gravávamos recebi a mensagem de Cannonball Adderley. Depois da gravação ter sido concluída eu mandei a fita para a esposa dele, que ainda estava muito chateada com a perda do marido. Essa música foi enviada através de um amigo do casal. Mas eu recomendei que ele não dissesse nada. Apenas pedi pra ele que mostrasse a música e procurasse saber a reação dela após ouvi-la. No dia da gravação todo mundo chorou; o técnico, os músicos... todos choraram. Todo mundo ficou muito louco. Superhigh. Quando a esposa de Cannonball ouviu a introdução veio instantaneamente na mente dela a imagem do marido. A música chama-se "Cannonball", mas ela não sabia disso. Foi só depois dela ter dito, ao amigo que levara a fita, que aquela música fez com que ela lembrasse do esposo, é que ele contou toda a história. Ela ficou sensibilizadíssima e pediu que ele agradecesse a mim e, como reconhecimento por essa homenagem que eu prestei a ele, mandou o saxofone dele para que eu usasse. Porque antes dela ouvir a música o saxofone seria levado ao museu. Mas eu não quis usar o saxofone porque achei que os americanos iam ficar com ciúmes. Vão pensar que além de eu fazer uma música em homenagem a um cara que eu não conhecia intimamente quis ficar com o saxofone dele. Então, pra evitar mal-entendidos, eu recusei o saxofone." .

Hermeto não sabe quantos disscos já vendeu e nem se preocupa com isso, pois mesmo que procurasse saber nunca saberia ao certo. O que sabe, e tem certeza, é que pelo menos 10 trilhões de pessoas o escutam assiduamente em todos os planetas.

Nenhum comentário: