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1 de maio de 2009

Terra sem Males na Barra do Una (c. 1973)

Tinha lá seu metro e meio o simpático-cambaleante senhor que nos fazia um convite, intrometendo-se na pergunta que dirigiamos ao dono do boteco. Queríamos acampar num lugar bacana, de preferência retirado do agito da praia. Se não me falha a memória era o único bar da redondeza, logo que descemos da balsa vinda de Bertioga até a Barra do Una. Andávamos bastante a pé. Eu era o mais novo, entre 15 e 16 anos, tinha a Roseli (Baxinha), Paulão, Baby, Elias, Taninha e Magrão (Augusto) o mais velho, com 19 ou 20.
Logo de cara olhamos uns aos outros, tomamos uma poção de pinga para "ajustar o nível" e lá fomos nós.

Ele já ia dizendo que levaria a gente para conhecer o lugar mais lindo que jamais tínhamos pisado em nossas vidas e que pouca gente conhecia ou mesmo saberia como chegar. Sem ele seria certo que nos perdêssemos pelo caminho. Abria um sorriso de poucos dentes, nosso amigo.

Primeiro, falou que gostou dos nossos cabelos. As belas garotas com suas madeixas negras e galegas, aveludadas, eu tinha cabelos abaixo dos ombros, tipo espiga de milho, o Magrão, cabelo liso, louro e escorrido, passava dos ombros também e o Elias e o Paulão, blackpower de arrepiar. Paulão, um moreno de mais de metro e oitenta chamou a atenção do nosso amigo, invocou que ele era "da familia".

Saímos em direção a uma ruela estreita e dali, floresta adentro. Nosso guia esbanjava repertório com palavras muitas vezes difíceis de se entender, mas estávamos encantados com as promessas que ele ia fazendo a medida que a trilha se cobria de árvores, passarinhos, flores e perfumes inebriantes.
Conversa vai, conversa vem e a trilha foi sumindo aos nossos olhos, o papo raleando, o homem quieto, e daqui a pouco atravessamos um riachinho com água pela canela e mais a frente um outro mais fundo, e sobe morro e desce ladeira, e outro riachinho, até que num destes a água bateu na cintura. Atravessamos lentamente com nossas calças jeans, tênis, levantando as mochilas, mas ninguém se atrevia a perguntar nada, pois nosso guia andava firme e, agora, olhava só para a frente. A caminhada não tinha fim.

Horas depois, a paisagem abriu de repente. Antes de começarmos a nos preocupar de verdade, atravessamos um último riachinho que só deu para perceber que tinha água quando botamos o pé, de transparentíssimo que era! Um olhou para o outro e estava nítida a cara de satisfação de
cada um, ainda mais depois que avistamos algumas casas de barro com telhados de palha, num grande bolsão escondido rio do Una acima. Era uma pequena aldeia de índios.

Nosso anfitrião primeiro nos mostrou onde armar nossas barracas, sob olhares de poucas mulheres e crianças muito mais curiosos do que desconfiados, um local meio retirado da aldeia, numa bela clareira à sombra de uma jaqueira imensa. Um olhava para o outro e só ria. Enquanto montávamos nossas barracas, ele desapareceu.

O primeiro contato com uma jaca niguém esquece. Pois fomos eu e o Elias colher aquele imenso fruto amarelo, o mais suculento de todos, mortos de fome, ainda mais depois da caminhada até aqui. Percebemos umas crianças que riam, meio escondidas, mas não demos bola e fomos em
frente com a jaca. Abrir não foi difícil, o pior veio depois com o aumento das risadas e dos olhinhos que nos rodeavam pela clareira afora. Quem disse que alguém conseguia comer? Travava adoidado, eles sabiam!
Não demorou muito e lá vem um guri, com uma jaquinha, quase desmanchando, enviada pelo nosso amigo. Aí é que foi a festa e a meleca na barba do Paulão fez todos rirem pra lá da conta. Que delícia!

Fim do dia, todos desapareceram, acendemos nossa fogueira e veio nosso amigo com um litro de cachaça. Foi então que a história rolou. Ficamos ao redor da fogueira, debaixo de um céu coalhado de estrelas, com os sons da floresta fazendo fundo ao agora revelado cacique, com sua fala pausada e olhar certeiro, abriu o coração mesmo antes do primeiro gole.
O lugar tinha sido uma grande tribo com muita gente, até que chegou a Funai. Trouxeram doenças, violentaram meninas e mulheres, e, antes que tudo acabasse definitivamente, ele, nosso amigo, o próprio cacique, mandou que todos fossem embora dali. Ele, não, morreria no lugar se fosse preciso.

Nesse instante ele começa a chorar feito criança, soluça e fica difícil para a gente não conter a emoção diante daquela pessoa tão gentil, aberta, simples, que contava, entre soluços, como eram felizes antigamente, naquele lugar encantado. Fala dos costumes, dos peixes pescados em balaios, da mandioca, de cantorias, danças e da alegria de viver, onde tudo era de todos, ninguém era dono de nada.

Tinha uma saudade no peito, irreparável, apesar de dizer que agora, graças ao cunhado que insistiu em ficar, a aldeia até crescia um pouco, devagarinho, mas a cachaça era um mal incurável, ele sabia mas precisava para ajudar a "esquecer". A morte rondava sua alma, amargurada pela lembrança dos seus familiares enterrados ali, ou, agora sabe-se lá onde, se vivos e como, expulsos por "essa gente da Funai". Disso ele tinha certeza.

Passamos alguns dias maravilhados entre pequenas plantações de milho, mandioca, banana, palmito, muita água transparentíssima, algumas poucas mulheres que corriam da gente e não sabiam falar uma palavra em português, assim como crianças sempre nuas, escondendo-se dentro de casa, no meio da roça, espreitando a novidade.

No segundo dia veio nos fazer um convite, queria que morássemos ali. Lembro de um arrepio na espinha que poucas vezes senti na vida, mas que as meninas em primeiro lugar já disseram que não, que tinham suas famílias, seus pais, parentes e que poderiam visitá-lo quando fosse possível. Morar? De jeito nenhum. Estavam com um pouco de medo, afinal, se ele quisesse nos deixaria ali, pois voltar, como?

Passou tudo muito rápido, nos levou para o mesmo boteco, pediu uma pinguinha, abraçou um por um, deu meia volta e sumiu.

Nunca mais retornei, "puxado" ao Sul do Brasil, onde vivo até hoje. Acho que os espíritos que conheci sempre apontaram para um outro caminho, na beirada... ao mesmo tempo que estou no meio da floresta, também tenho carro, internet, computador, tecnologia, coisas de branco que convivem com coisas de índio, entre as mais belas, os sonhos e saudades.

Um dia gostaria de voltar na Barra do Una e ver que eles ainda estão lá. Seria como ter a certeza de que o mundo tem jeito, sim, mesmo com gente querendo violentar nosso sonho.