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21 de maio de 2012

Franceses, latinos, gregos, Otto Maria Carpeaux, Ferreira Gullar, cartas eróticas de James Joyce e Les Temps Modernes esperam por você, distraído leitor


Quinze mil livros de bordas amareladas descansam tranquilos no número 1344 da Avenida Mauro Ramos, no centro de Florianópolis. Olhos apressados passam reto pela placa que sinaliza, logo depois da igreja evangélica nababesca, a existência de um pequeno achado: uma biblioteca quase-pública (mas sem público) que guarda o acervo de uma vida toda.

Quem sai do pandemônio do resto da cidade e entra nos fundos da casa que esconde a biblioteca sente um leve deslocamento no espaço e no tempo. Não parece Florianópolis, nem 2010. O sol das 15h passa pelas vidraças e bate nas prateleiras cheias de clássicos de direito, sociologia, filosofia, história, teoria literária e literatura. No quintal, uma bananeira exibe um cacho verde. Volta e meia, um bem-te-vi pousa na grama. Só o que remete ao mundo lá de fora são dois computadores parados num canto.

Vale a visita. Se não para pegar um livro (nem todos são emprestáveis), pelo menos para sentar, ler e aproveitar o ambiente agradável durante um tempo.

O charme do lugar começa pela sua história


O acervo pertenceu ao político, professor e apaixonado por leitura Osni Régis. Após assistir My fair lady, estrelado por Audrey Hepburn, ele resolveu construir na sua casa uma pequena-semi-réplica da biblioteca que aparece no filme. Depois que morreu, em 1991, a família decidiu abrir o espaço ao público e criou a Fundação Prof. Osni Régis, que banca a manutenção de tudo com recursos próprios.

Para quem estuda Direito, os muitos títulos na área representam o paraíso. Mas também há clássicos literários brasileiros e estrangeiros - franceses, latinos, gregos, uma prateleira toda de Agatha Christie e muitas raridades. Entre elas, a História da Literatura Ocidental, de Otto Maria Carpeaux, em sete volumes, uma pequena autobiografia de Ferreira Gullar, cartas eróticas de James Joyce para a mulher, as obras completas de Tomás de Aquino, Karl Marx e números de revistas pouco encontráveis por aí, como a francesa Les Temps Modernes, fundada por Jean-Paul Sartre.

Quinze mil livros: delicie-se

Fazer a manutenção de tudo isso já é complicado o bastante, por isso todas as ofertas de doações de livros são delicadamente negadas. O acervo permanece com 15 mil volumes há quase vinte anos.

“Livro é para ser lido, deixá-lo parado na estante não é o objetivo”, diz Isabel Régis, filha de Osni Régis e presidente do conselho curador da Fundação. Ela lamenta que a biblioteca tenha tão poucos visitantes. “Quando vem alguém é mais pra pesquisar na área de literatura e direito. Ou então as pessoas entram, olham o lugar e vão embora”.

Quem fica lá todos os dias cercada pelos maiores clássicos mundiais é Maria, que recebe os passantes, cuida dos livros, deixa o lugar sempre impecável e fica de olho no amadurecer dos cachos de bananas. “São mais gostosas que qualquer uma que se vende no supermercado”, saliva.

Ler um pouco, levantar, ir até o gramadinho lá fora, pegar uma banana, comer, escutar um passarinho. Por que mesmo ninguém nota aquela placa na Mauro Ramos?

Texto: Rosielle Machado
Fonte: Revista Naipe

8 de maio de 2012

Aves do Pantanal






O Poster de Aves do Pantanal segue o mesmo padrão de qualidade da primeira edição do Poster de Aves da Floresta Atlântica que ganhou uma segunda tiragem, revisada e atualizada. Ambos contaram com a parceria institucional da SPVS, Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental e revisão científica de Vítor Piacentini, do Museu de Ornitologia da USP.

Biomas brasileiros

Criado, fotografado e elaborado dentro da Reserva Rio das Furnas durante quase 10 anos, o primeiro Poster não demorou a bater asas e ganhar o Brasil e alguns países. A experiência com esse trabalho nos permitiu desenvolver o Poster de Aves do Pantanal em menos de um ano, o que significou um passo adiante na rota dos biomas brasileiros.

A ideia é percorrer os biomas brasileiros e desenvolver um Poster para cada um. Nossa rota ainda está indefinida e, tal qual aconteceu no Pantanal, será construída a partir de contatos por email, encontros, amizades e dicas antes e durante a expedição. 

Este ano pretendemos ir ao Amazonas orientados pelo amigo e ornitólogo Vítor Piacentini. Desta vez buscaremos as aves daquele bioma e levaremos as que temos em mãos, num troca-troca de passarinhos com as escolas que vão sendo contactadas pelo caminho e são indicadas por amigos, como temos feito até agora.

Roda de Passarinho

Roda de Passarinho na Escola de São Leonardo. A Caxola estava lá.

Desde o início nossa ideia foi apresentar as aves para os alunos do ensino fundamental Brasil afora, através da Roda de Passarinho, atividade que desenvolvemos há anos na Escola de São Leonardo e no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil-PETI, em Alfredo Wagner. 

Inspirados nas descontraídas rodas de conversa, samba e chimarrão, criamos essa, por onde circulam fotos de aves, penas, ninhos, sons, papos sobre hábitos, habitats e preservação ambiental. Até criamos um mascote, a Caxola de Ideias, com uma caixa de papelão virada do avesso, que já ganhou um companheiro no Pantanal, feito pelas crianças do Instituto Familia Legal.

No final de nossa atividade as crianças recebem uma fotografia 13 x 18cm de uma ave identificada e a sala, um Poster. Para o Pantanal levamos as aves da Floresta Atlântica, as mesmas que seguirão conosco para o Amazonas, enquanto que para os alunos de cá vamos mostrando as aves de lá. Devagarinho expandiremos nossa Roda que já esteve no Uruguai

Expedição ao Pantanal: Buraco das Araras

Ela sabe que é linda e charmosa ao ser fotografada

Edson Endrigo nos deu a primeira dica: Buraco das Araras. Um adjetivo para o local? Estupefaciente. Voos impressionantes de araras nos fizeram perder algumas fotos por conta da emoção, sentimento que fotógrafo deveria deixar de lado, mas também apanhamos do foco automático da EOS 5D que perdia-se no emaranhado de cores vibrantes que só neurônios especializados conseguiam definir.
Com calma conseguimos capturar os maravilhosos Udú-de-coroa, Anambé e Inhambú-chororó para o Poster.

Ainda em Jardim, na nossa segunda parada, capturamos casais de mutuns e bicos-de-agulha; o espetacular Araçari-castanho; Tucano-toco e alguns papagaios. Todos aparecem no Poster, menos o casal de Fim-fim (Euphonia chlorotica) que ficou com cara de pinto-molhado debaixo da primeira e única chuva da expedição, no Camping de Dona Henriqueta que cruza o Rio da Prata.

Bonito

A Caxola ganhou um namorado em Bonito, olha a cara de felicidade da danadinha!

Tietta Pivatto e Daniel de Granville, foram fundamentais para o sucesso de nossa expedição ao Pantanal. Além de nos apresentarem a Walkiria do Instituto Família Legal, onde aconteceu a primeira Roda de Passarinho, também foram responsáveis pela fantástica subida ao Rio Paraguai.

Com os alunos do Família Legal tivemos uma bela surpresa, pois identificaram certinho os cantos e hábitos de várias aves, recordação das oficinas promovidas pela Fundação Neotrópica, como nos contou Marja Milano, quando visitamos a sede da Fundação.

Ainda em Bonito fomos apresentados ao guia Antonio Carlos Candido, através do casal Siro Sirgado e Jô, com quem saímos para conhecer o Morro do Mateus e um belo trecho nas margens do Rio Formoso. Essas saídas deram ao Poster uma simpática Ema (Rhea americana), João-pinto (Icterus croconotus) e a magnífica Arara-canindé (Arara ararauna).

Bodoquena

Dona Edir e Luciana, do Instituto Educacional Serra da Bodoquena.

Siro e Jô - agora morando em Bodoquena – também nos apresentaram à madrinha dos Kaduweu, dona Edir que nos levou até seu Antonio Paraguai, onde fotografamos a Arara-azul-grande (Anodorhynchus hyacinthinus) que aparece no Poster. Dona Edir também nos levou até Luciana, coordenadora do Instituto Aroeira, onde aconteceu a segunda Roda de Passarinho e, de quebra, na saída do Instituto fotografamos um casal de periquitos-rei (Aratinga aurea).

A madrinha dos Kaduweu também nos levou até a cabeceira do Rio Betione, local de nossa pernoite e avistamento do Sanhaçu-do-coqueiro (Tangara palmarum).

Welcome to Pantanal

Fabiano, da Pousada Aguapé: passarinhada inesquecível.

Na primeira descida, saindo de Bodoquena, vislumbramos o vasto Pantanal com suas pequenas elevações e um mar de vegetação baixa e cerrada em volta dos morros que de tempos em tempos transformam-se em ilhas.

Nossa próxima parada foi no Camping da Pousada Aguapé onde esperávamos chegar até o alvorecer, mas a estrada-das-costelas-de-vaca que liga a BR262 ao nosso destino fez com que a marcha fosse diminuindo, diminuindo até quase parar num sufoco de poeira com direito a incêndio na beira da estrada e tudo. A estradinha é simpática, vale a pena, só não viaje à noite porque a vontade é dar meia-volta e acampar na beira da BR...

Já na beira do Rio Aquidauana, após um banho regenerador e descanso merecido conhecemos o seu João, proprietário da Aguapé e “pai adotivo” do Endrigo, frequentador da pousada há anos. 

Fomos apresentados ao Fabiano, que nos guiou a uma passarinhada inesquecível. Da Aguapé trouxemos para o Poster o Príncipe-negro (Aratinga nenday), Gavião-preto (Urubitinga urubitinga), Biguatinga (Anhinga anhinga) e o raro Pica-pau-de-testa-branca (Melanerpes cactorum).

Estrada Parque

O Élcio nos acompanhou até o fim da linha, na Estrada Parque.

Sonho de todos que viajam ao Pantanal, a Estrada Parque nos recebeu com pegadas Tuiuiú logo na primeira parada. Um problema: muitos caminhões indo e vindo por conta da destruição das pontes, pois as chuvas daquele ano foram uma das maiores dos últimos tempos. 

Mesmo assim, conseguimos chegar ao Camping da Pousada Passo do Lontra no final de mais um dia. Nesse oásis de cavaleiros, turistas e pescadores fotografamos o Pica-pau-branco (Melanerpes candidus), Garça-real (Pilherodius pileatus) e o magnífico Surucuá-de-barriga-vermelha (Trogon curucui).

Pioneiros do ecoturismo

Élcio: absolutamente integrado ao seu ambiente pantaneiro.

Élcio Rodrigues da Silva nasceu em 12 de janeiro de 1971 em Corumbá. Sua mãe, Solane Fretes da Silva é Paraguaia e o pai Ramon Rodrigues da Silva veio de Cuiabá muito novo. Élcio Pantaneiro, como é conhecido, foi um dos primeiros a se embrenhar no coração do Pantanal com turistas estrangeiros. 

Conhecemos essa pessoa tranquila através de uma indicação do único barzinho na Estrada Parque, após sairmos do Camping Passo do Lontra em direção a Corumbá. 

Passamos alguns dias ao seu lado, conhecemos o Rio Abobral e um pouco da vida desse guia apaixonado pelo Pantanal. Ouça a conversa que gravamos com Élcio

Corumbá

Lindos bailarinos na Roda de Passarinho do Moinho.

“Não porque seja minha terra, mas vocês tem que ir até Corumbá, conhecer o rio Paraguai”, com essa frase cheia de sorrisos o Élcio nos desejou boa viagem e fomos em frente. Nossa vontade era ir pela Estrada Parque, passar pela borda da Nhecolândia, conhecer a Curva do Leque, Porto da Manga, mas não conseguimos; a Estrada Parque estava interditada e a BR262 seria o único caminho.

Chegando em Corumbá fomos ao Moinho Cultural, a convite de Viviane Fonseca Moreira, Bióloga e Gestora do Setor de Meio Ambiente do Instituto Homem Pantaneiro, com quem Daniel de Granville já tinha nos conectado por email. Nesse antigo moinho, no Porto Geral de Corumbá, recuperado e transformado em Ponto de Cultura, fizemos nossa Roda de Passarinho entre ensaios de bailarinos. 

No pátio, estacionados em nossa casamóvel, tivemos belas surpresas, tanto com o carinho do Espirito, zelador do local, como da passarada que dividia espaço com músicos que ensaiavam para um espetáculo.

Escola Jatobazinho

Na volta ao Jatobazinho o abraço de queridos amigos.

A convite de Viviane embarcamos na segunda-feira de manhã para conhecer a Escola Jatobazinho e lá apresentar nossa Roda de Passarinho. Coordenada por Jéssica Marcelle Cedron de Souza do Acaia Pantanal, fomos recebidos com carinho e tamanha foi nossa surpresa ao perceber que ela própria nos havia cedido o seu quarto, com ar-condicionado e tudo! Porque faz tanto calor no Pantanal, de cozinhar o miolo! Porém, com um detalhe: nos disseram que o calor mal havia chegado, imagine...

Numa coincidência generosa nossa visita aconteceu com a volta às aulas. Muitas rabetas encostaram no porto do Jatobazinho com famílias inteiras trazendo seus filhos para a escola. Ares de despedida, rever amigos de sala, de quarto, professores amigos, merendeiras, toda uma equipe preparada para mais uma jornada de aulas.

Foram dias maravilhosos em que fomos recebidos com muito carinho por toda a equipe da Escola. A fauna da região é muito rica e de lá trouxemos Asa-branca (Dendrocygna autumnalis) e Xexéu (Cacicus cela) para o Poster das Aves do Pantanal.

Para adquirir os Posters



Bom, agora é hora de mostrar o nosso trabalho, continuar nossa expedição, fazer contatos para conhecer o Amazonas e de lá trazer mais um Poster para ser distribuído entre crianças e a galera que apoia nosso trabalho desde o primeiro momento. Afinal, nossa meta sempre foi e será espalhar o conhecimento da beleza alada de nosso Brasil e esta é a forma que encontramos.

Para adquirir o Poster de Aves do Pantanal, o procedimento é o mesmo do anterior, ou seja, fazer um depósito de R$ 30,00 +  R$ 5,40 de despesas de Correio. Para isso vc precisa entrar em contato pelo email riodasfurnas@gmail.com e saber como proceder. O material é enviado com registro + seguro e em tubos para proteção.

Há um desconto especial de lançamento para aquisição de dois posters, ficando em R$ 50,00 + R$ 7,00 de despesas de Correio.

Avistar 2012

Fotos utilizadas no Poster estão inteiras e originais na Caixas de Aves


Participamos da maior feira de aves do Brasil, o Avistar em São Paulo, de 18 a 20 de maio. Lá muitas pessoas conheceram a gente e adquiriram os posters com os mesmos valores de lançamento, ou seja, R$ 30,00 cada um ou R$ 50,00 os dois. 

Também levamos as Caixas de Aves dos biomas visitados, uma peça personalizada com as fotos originais utilizadas na confecção dos posters. Mais detalhes clique aqui.

Abaixo, detalhes do Poster de Aves do Pantanal.





2 de maio de 2012

Ritual de pica-pau


Picumnus temminckii  - Pica-pau-anão-de-coleira - photo Renato Rizzaro


News que enviamos em julho de 2008 - Duelo caprichoso - descrevia o duelo caprichoso entre dois Pica-paus-dourados. Helmut Sick, nosso guia, descreveu esse ritual somente para o Pica-pau-anão-barrado, espécie que não ocorre em Santa Catarina. Aqui está o ritual dos anões-de-coleira. 
Os dourados eram lentos, minuciosos nos movimentos; os anões são lépidos, procuram a sombra das alturas e  sua coreografia é silenciosa. Enquanto os machos desenvolvem o ritual, as fêmeas ora acompanham de perto, quase envolvendo-se na dança, ora afastam-se, charmosas. O dueto as vezes se aquieta; um vasculha galhinhos, pica, faz rodeios; o outro observa, segue. De repente juntam-se e o duelo continua, intenso. 
Circularam num raio de 50 metros, de árvore em árvore, acompanhados pelas fêmeas e pelo fotógrafo. Mansos, não somem quando perseguidos, até posam para a chapa, creia!
Sick nos ensina que os pica-paus-anões estão entre os mais energéticos batedores e têm pés relativamente gigantescos. Forrageiam sobretudo nas pontas dos galhos, ramos e cipós finos e geralmente secos à procura de formigas, um nicho ecológico livre. 
Dormem sempre em ocos, onde se abrigam da chuva pesada. Começam tarde suas atividades, não sendo madrugadores.
O mestre Sick continua: o reflorestamento com pinus e eucaliptos não favorece a existência de pica-paus o mesmo acontecendo com capoeiras nativas, nas quais faltam árvores maiores para a instalação de seus ninhos. 
Os pica-paus são bastante sensíveis aos inseticidas. A existência de pica-paus pode até servir como indicador de que a respectiva biocenose (do grego bios, vida, e koinos, comum, público) continua intacta.


Vítor Piacentini, em resposta ao nosso News, acrescentou:

Curiosidade: biocenose é por vezes "traduzida" como assembléia de espécies, e pode ser entendida como o conjunto de espécies que habita determinado lugar. Há inclusive variantes, como anurocenose, fazendo clara referência - neste caso - não à todas as espécies do local, mas somente às de sapos, rãs e pererecas. Mesmo ornitocenose existe, embora pouquíssimo utilizado.