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7 de dezembro de 2013

Da Lagoa do Peixe ao Parque do Espinilho

Flamingo na Lagoa do Peixe. Foto Renato Rizzaro


“Agora vai!” O Flamingo não se conteve e gritou, enquanto corria sobre a água para alçar vôo, na Lagoa do Peixe, em Tavares. Creia!

Há anos estivemos no Pampa e, recentemente, em Tavares. Revisitamos Uruguaiana e conhecemos o Parque do Espinilho, em Barra do Quaraí.

Estamos a caminho do quarto Poster de Aves, agora com as Aves do Pampaabertos aos amigos que cultivamos pelo caminho e nos tem abastecido com carinho, abrigo e as melhores dicas para avistarmos e fotografarmos um tudo, da alvorada ao ocaso.

Em Tavares fomos muito bem recebidos pelo Batista, da Lagoas Expedições que nos indicou locais fantásticos tanto na Lagoa do Peixe quanto na dos Patos. Longas caminhadas à beira dágua renderam belíssimos registros: Papa-piri, Mergulhão-de-orelha-branca e a magnífica Viuvinha-de-óculos. 

Ali, conhecemos Silvia e Públio, paulistanos que adoram Natureza e com os quais nos conectamos por gostarmos de aves, fotografia e silêncio...

A segunda etapa da expedição nos levou até o casal Gina Bellagamba Ricardo de Oliveira, em Uruguaiana. Entre intensas atividades, nos deram o prazer de sua companhia em saídas que renderam belos e inusitados registros, como o Pica-pau-de-testa-branca, Caboclinho-de-peito-escuro e o espetacular Cardeal-amarelo.


No Parque do Espinilho permanecemos por vários dias graças ao contato antecipado de Ricardo com a gestora Tatiane Uchôa que nos permitiu explorar o Parque por todo lado. Fotografamos emas, lebres, lontras, flores, insetos, paisagens e, claro, muito passarinho.

Então, realizamos a Roda de Passarinho na Escola Municipal 22 de Outubro, em Barra do Quaraí, para a classe mais agitada de todas, como nos avisou Graciane, diretora da escola.

Com estes alunos “impossíveis”, sob os cuidados da professora Elizabete e atenção de Tatiane, apresentamos mais sons de aves e exercícios de relaxamento entre uma e outra rodada de fotografias. As sementes e o pião-de-tarumã prenderam a atenção de todos, porém a tarrafa-de-bola não suportou a hiper atividade do grupo e teve que ser suspensa, pois a bola voava demais! 

Como sempre, levamos sonhos de uma Terra bem cuidada e um pouco sobre Reservas Particulares, pois acreditamos ser uma boa maneira de proteger e conservar fauna e flora.


Graciane, Elizabete, Gabriela e Tatiane Uchôa com a hiper-turma da Escola 22 de Outubro. Foto Renato Rizzaro

Após a chuva o Parque amanhece fresquinho. Foto Renato Rizzaro

Entre os espinilhos do Parque a luz entrava devagarinho em nosso dia. Foto Renato Rizzaro
Treze ovos de Ema em um ninho. Foto Renato Rizzaro

Eram três lontras na beira do rio... Foto Renato Rizzaro

Tempo de procriação no Parque do Espinilho. Foto Renato Rizzaro

Fazenda Tarumã, de Ricardo e Gina Bellagamba de Oliveira. Foto Renato Rizzaro

Aqui repousam os ancestrais da fazenda Tarumã. Foto Renato Rizzaro


Epitáfio na tumba dos ancestrais Oliveira, na Fazenda Tarumã. Foto Renato Rizzaro
Corticeira, a mais antiga árvore viva na Fazenda Tarumã. Foto Renato Rizzaro

Pedra utilizada em Boleadera pelos nativos da região de Uruguaiana. Fazenda Tarumã, foto Renato Rizzaro

Rádio-amador, única comunicação em tempos idos da Fazenda Tarumã. Foto Renato Rizzaro

Ricardo, Gina, Gabi e Re em pose clássica na varanda da centenária Fazenda Tarumã

Ninhal próximo a São Gabriel. Foto Renato Rizzaro


Agradecimentos:

Alejandro Olmos (Uruguay)
Adrian Rupp
Amílcar D'Ávila de Mello (Canto da Lagoa)
Cícero P. Corrêa (Quaraí)
Edson Endrigo
Elizabete Jaques Riella (Professora da Escola Municipal 22 de Outubro)
Fabiano e Henrique (Guarda-parques do Espinilho)
Gina Bellagamba e Ricardo de Oliveira (Uruguaiana)
Graciana Alves Pavanatto (Diretora da Escola Municipal 22 de Outubro)
Hellen José Florez Rocha (Chefe do Parque Nacional da Lagoa do Peixe)
Marcelo Madeira (Pampa)
Renato Grimm
Rosangela Carvalho de Lima (Secretária de Educação de Barra do Quaraí)
Silvia e Públio (São Paulo)
Tatiane Uchôa (Gestora do Parque Estadual do Espinilho)



30 de outubro de 2013

O livro proibido sobre Leminski

Criação de capa para o livro de Pellegrini


isso de ser 
exatamente como a gente é, 
ainda vai 
nos levar além (Leminski)

Assim fecha a carta aberta que Domingos Pellegrini, autor do livro Passeando por 
Paulo Leminski, dirige ao Supremo Tribunal Federal.

Eis a Carta:

Srs. do Supremo Tribunal Federal 
    que analisam a inconstitucionalidade da censura às  biografias:

    Sou escritor e acabo de colocar na internet, para divulgação e reprodução gratuitas permitidas, o livro inédito em anexo, Passeando por Paulo Leminski, pois a família herdeira não autorizou sua publicação impressa. 
    O caso é arquetípico da antidemocrática contradição entre o Artigo 5 da Constituição e o Artigo 20 do Código Civil, um determinando e outro impedindo liberdade de expressão. 
    O livro nem é exatamente uma biografia, mas um misto de minhas memórias com Leminski, amigo com quem convivi, e observações de psicologia, sociologia, crítica literária e clínica médica (nisto, analisando seu alcoolismo, com informações médicas precisas e com dignidade. Mas a família herdeira quis obstar isso, como se todos não soubessem que Leminski morreu de cirrose agravada por hemorragia hepática, como também não há quem desconheça que Roberto Carlos tem perna mecânica, o que não os desmereces nem como artistas nem como pessoas, ao contrário). 
    Além disso, meu livro procura uma justa apreciação crítica da obra de Leminski, que é endeusado por uns e detratado por outros. Aliás, antes de sua coletânea Toda Poesia tornar-se best-seller recentemente, eu já o defendia em crônicas na imprensa, que incorporei ao livro - e, quando Toda Poesia foi publicada e tornou-se alvo de ataque torpe no jornal literário Rascunho, fui eu que o defendi exigindo publicação de artigo reparador, que também incorporei ao livro; a família ficou em silêncio).
    Há que ressaltar, ainda, que não procurei escrever esse livro: fui procurado, em junho, pelo editor Samuel Ramos Lago,  da Editora Nossa Cultura, sediada em Curitiba, propondo escrever biografia de Leminski, com autorização da família, que examinaria o texto, e comigo dividiria os direitos autorais. Recusei a proposta, por sentir que me faltariam tanto a paixão quanto a liberdade essenciais para a escrita criativa, condizente com a criatividade de Paulo Leminski. 
    No entanto, memórias de minha vivência com Leminski passaram a me assaltar de tal forma que senti o dever de obedecer ao apelo criativo, e escrevi  Passeando com Paulo Leminski, que a Editora Record se propôs vivamente a publicar - porém advertindo que só contrataria comigo a edição se com autorização da família, pois já se instalou na editoração livreira do Brasil uma cultura de obediência prévia à censura, para preventivamente evitar prejuízos com publicações embargadas e recolhidas. 
    Assim,  eu, que lutei contra a ditadura, me vi na situação de sofrer censura ao focar e refletir dignamente sobre um amigo portador de espírito libertário, tolhido pela mesma família que antes me escolhera para escrever biografia dele! Ou seja: quando era para escrever monitorado, eu servia; quando me dispus a escrever criativa e livremente, passei a não servir. Fico me perguntando quanto pesou, na decisão da família herdeira, o fato de meu livro render direitos autorais apenas a mim, se tivesse publicação impressa.
    O livro não detrata Leminski, como fazem muitos detratores, nem o endeusa, como fazem seus fãs; em vez de tratar ou destratar, foca Leminski em suas várias facetas, lembrando, analisando, considerando, sempre de forma digna e afetuosa, pois era amigo querido, portador de uma visão de mundo e de um  estilo únicos na cultura brasileira. Isso não foi ainda apontado com clareza, imparcialidade e precisão nem na biografia O Bandido Que Sabia Latim (Toninho Vaz, Editora Record), nem na já vasta fortuna crítica sobre Leminski. Assim, o livro só consolidaria o mito artístico que ele tão intensamente cultivou em vida, e que continua muito vivo.
    A família herdeira, no entanto, optou por, primeiramente, sabotar meu livro, negando-se a responder emails meus e emails e telefonemas da editora. Quando, porém, comuniquei a decisão de publicar na internet, recebi imediata resposta, propondo alterações que resultariam num livro "chapa-branca", conforme expressão corrente na imprensa sobre a polêmica da inconstitucionalidade dessa censura prévia. 
    Assim, o patrimônio cultural brasileiro, Paulo Leminski, mesmo tendo falecido há 24 anos, continua apenas patrimônio familiar, a família herdeira negando-se a ver que trabalha contra ele ao invocar o Artigo 20 do Código Civil em detrimento do Artigo 5 da Constituição. Na polêmica sobre isso, a posição de Leminski seria certamente a favor do Artigo 5, coerente com seu espírito libertário e socializante. 
    Na biografia Estrela Solitária, de Garrincha, escrita por Ruy Castro, ficamos sabendo que Garrincha, ainda nenê, recebia dos avós índios mamadeira com pinga, canela e mel, informação tão reveladora para seu alcoolismo, e também o tipo de  informação a atiçar o zelo censor de família herdeira... 
    Lúcia Flexa de Lima declara, em entrevista ao Estado de S. Paulo neste 14 de outubro, que gosta só de uma das várias biografias de sua amiga Lady Dy, com isso evidenciando que, num Estado democrático como a Inglaterra, podem se manifestar com liberdade não só o mercado editorial como o público leitor, fazendo suas escolhas. 
    Por tudo isso, sou plenamente a favor da posição do ministro Joaquim Barbosa: liberdade de criação e publicação, com indenizações pesadas para os abusos de difamação, calúnia etc. Mas, para isso, claro, teríamos de ter uma Justiça que não fosse injusta pela própria lerdeza. 

    Mas, parodiando Leminski, "isso de ser exatamente como a gente é, ainda vai nos  levar além".

28 de outubro de 2013

Design para Agenda Acaprena 2014

Capa da Agenda: Formiga da Ordem Himenópteros, Brusque, SC. Foto Sandro Salomon

Lagarta de mariposa da Ordem Lepidópteros, Reserva Rio das Furnas, Alfredo Wagner, SC. Foto Renato Rizzaro.
Besouro da Ordem Coleópteros, Reserva Rio das Furnas, Alfredo Wagner  SC. Foto Renato Rizzaro
Besouro da Ordem Coleópteros, Reserva Rio das Furnas, Alfredo Wagner  SC. Foto Renato Rizzaro
Serrador, inseto da Ordem Coleópteros, Reserva Rio das Furnas, Alfredo Wagner  SC. Foto Renato Rizzaro

20 de agosto de 2013

Criação de logomarca para Minas Birding Tour


Criação de logo com ilustração de Dilce Laranjeiras, baseada em foto de Paulo Couto.

7 de agosto de 2013

Guia de Aves de Paraty


Em parceria com o grande amigo Edson Endrigo.

31 de julho de 2013

N e v e m o s

Madrugada iluminada na Reserva. Foto Renato Rizzaro

Moradores de São Leonardo nunca viram nada parecido; um espetáculo fantasia, diziam. 
Nosso encantamento começou lá no Alto da Boa Vista, vindos da Ilha, ao avistar as montanhas espatuladas de branco puro, tanto que nem o azul profundo e denso do céu conseguia tingir. Subimos a Serra e por ali ficamos até o sol plantar fogo. Então, descemos o canyon da Reserva e visitamos estrelas.
Dia seguinte, a surpresa: neve nas árvores, na beira do rio, espalhada pelos telhados, torrões pelo chão, água congelada, absolutamente tudo banhado de céu, bleu.
A letargia no vôo do beija-flor pelas minguadas flores apontava para o termômetro a menos dois e nem o sol, poderoso, conseguia esquentar a furna. Descongelados, os canos cuspiram barro e as frágeis folhas tostaram.

O tempo, sempre atrasado por estas bandas, parou de vez e sobrou hora naquele dia para sorver um outro ar, picante, temperado, marítimo, polar. Foi então que muito mais do que estrelas cobriram nossos sonhos de profundo silêncio e lua e outro dia veio e juntou semana e cheiros e afazeres... Naquele instante, ora, nevamos para sempre.


Gabriela na beira do Rio das Furnas. A face Sul ficou assim durante o dia todo. Foto Renato Rizzaro

8 de julho de 2013

Luz de Outono

Luz de inverno. Foto Renato Rizzaro/Reserva Rio das Furnas

29 de junho de 2013

Guia de Aves do Cristalino Lodge




Livro Biodiversidade Catarinense


A obra traz grandes contribuições ao conhecimento da biodiversidade de Santa Catarina, porque ergueu-se sobre ombros das gigantes pesquisas do Dr. Roberto Miguel Klein, Dr. Raulino Reitz e recentemente com as informações advindas do Inventário Florístico Florestal, coordenado pelo Dr. Alexander Vibrans - FURB, bem como das informações zoológicas e geológicas vindas de pesquisas feitas no Estado.

Esta obra se dirige especialmente aos professores da Educação Básica de Santa Catarina, mas será de grande utilidade para os cursos de Pedagogia, Biologia, Engenharia Florestal, Agronomia, Ciências Ambientais, Direito, Veterinária.... bem como para os órgãos gestores de meio ambiente das prefeituras, além de empresas de consultoria, ONGs e curiosos.

Organizada por Lucia Sevegnani e Edson Schroeder, obra fartamente ilustrada com design e assessoria de edição de Renato Rizzaro.

Obra financiada pela FAPESC - Agência de fomento à pesquisa do Estado de Santa Catarina e com apoio da FURB, sai pela editora da FURB, assim como os livros do inventário Florestal. O livro tem financiamento público e será dirigido às escolas e universidades.



28 de abril de 2013

Expedição Amazonia


"Quem será o viajante do Século XXI? Em primeiro lugar há que esperar que sejam capazes de levar adiante o Pensar a Amazônia, a Pan-Amazônia, principalmente. Em segundo lugar, augura-se sejam iluminados e capazes de gestos de enorme generosidade, que não levem apenas belas fotos e histórias, e sejam capazes de ouvir e compreender, e sejam suficientemente provocadores e não meros deslumbrados e ilusionistas. E isso porque não há tempo para diletantismo, para o turismo pelo turismo, para a ventura hedonista, porque o avanço da fronteira pioneira precisa encontrar seu destino."
João Meirelles Filho - Grandes Expedições à Amazônia Brasileira - Século XX

2012 foi o ano da ansiosamente aguardada Expedição Amazônia, este "outro" Brasil que deveria ser respeitado e protegido. Sobre a Expedição, já publicamos alguns News em janeiro de 2013, tendo como fio condutor a Roda de Passarinho.

A Expedição resultou numa grande quantidade de fotos, videos e textos dos quase 80 dias e 13.000 quilômetros rodados com a bravíssima Toyota Bandeirante, apelidada de Toca de Ferro pelos amigos do povo Paiter Surui em Rondônia.

Chegou a hora de contar e ilustrar um pouco mais a experiência que possibilitou o contato com um Brasil desconhecido e a criação do poster Aves da Amazônia, com o qual pretendemos espalhar a cultura de nosso povo e a mensagem urgente de que é preciso conservar, proteger, conhecer, para incluir no mapa os 60% do Brasil Amazônico.

"Floresta sozinha é paisagem, quem dá vida à floresta é o homem."

Thiago de Mello


Gabriela e nossa casa sobre rodas na Vila Rayol, já em Itaituba (PA). Foto Renato Rizzaro

Da Reserva Rio das Furnas, em Santa Catarina, seguimos para Tibagí no Paraná onde fomos recebidos por um dos adotados da SPVS, Nicolaas e família, na também Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), Sonho Meu. Eles protegem uma belíssima área no canyon Guartelá que abriga algumas furnas com inscrições rupestres e formações geológicas com a mesma formação encontrada no Parque Estadual Vila Velha.


Sonho Meu, RPPN que protege parte do canyon Guartelá, no Paraná. Foto: Renato Rizzaro

Santa Fé do Sul, no Oeste paulista. Foto Renato Rizzaro


Dois dias de viagem e chegamos a Santa Fé do Sul, no extremo Noroeste de São Paulo. Dica de Alan Souza, através do Wikiaves.
Outros dois dias e paramos no Vale dos Sonhos (MT), orientados pelo amigo Renato Gama que nos levou direto ao Maurinho. Ficamos vários dias no Portal do Roncador, uma rara maravilha, com suas histórias e meandros.

Portal do Roncador: imponente e misterioso. Foto: Renato Rizzaro

Maurinho nos indicou Nova Xavantina (MT), uma das bases da Expedição Roncador/Xingú, que ganhou este nome em homenagem aos índios que habitavam a região. Lá, conhecemos Cocó, da família Rotta, que nos levou até algumas grutas com inscrições rupestres, sítios arqueológicos e nos apresentou ao Rio das Mortes, pelo qual tivemos o prazer de navegar.
Seguimos em direção ao Parque do Xingu pela BR-158 e, para nossa surpresa - e desencanto - tivemos que dar meia-volta em Água Boa, pois a estrada de acesso ao parque estava interditada, segundo a Polícia Rodoviária Federal, devido aos conflitos com indígenas.
Novamente, passamos na frente do Portal do Roncador e seguimos para Chapada dos Guimarães, via Primavera do Leste, pela BR-070.

Queimadas absurdas ardem Brasil afora. Nem tudo resiste...

Cruzamos a Chapada dos Guimarães em direção ao município de Alta Floresta (MT), pois tínhamos compromisso com Dona Vitória da Riva e queríamos muito conhecer a Reserva do Cristalino e a sua Fundação. Edson Endrigo nos colocou em contato com Dona Vitória durante o Avistar 2012. Ficamos quase uma semana, percorremos trilhas, torres e navegamos no rio Cristalino guiados por uma atenciosa equipe.

Filhote de Gavião-real (Harpia harpyja) nas terras da Fundação Cristalino, em Alta Floresta (MT). Foto Renato Rizzaro

Cristalino Lodge, todo o conforto no Portal da Floresta Amazônica. Foto Renato Rizzaro
Uirapuru (Cyphorhinus arada) fotografado na floresta protegida do Cristalino. Foto Renato Rizzaro

Próxima parada: Itaituba (PA). Na travessia da balsa, conhecemos o pessoal do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) que nos acompanhou até o escritório para obtermos autorização para entrar no Parque Nacional do Amazonas. Na manhã seguinte, fomos muito bem recebidos por Gilberto Nascimento e Enoc, que na época eram os bravos guerreiros que guardavam o parque. Tivemos visões magníficas da "selva" praticamente intocada, ou, antes de tudo protegida, de caçadores, madeireiros, garimpeiros e dos tais projetos de hidrelétricas absurdas que nem deveriam sair do papel. Uma agressão que não cabe no Século XXI e rende muita discussão até hoje. Veja matéria no portal ((o))eco.

Estrutura preparada para visitantes e pesquisadores no Parna do Amazonas, em Itaituba(PA). Foto Renato Rizzaro

No Parna Amazonas, à espera da Ararajuba com Gabi e Gilberto: não apareceram. Foto: Renato Rizzaro

Oficina lítica na beira do Rio Tapajós, no Parna do Amazonas: ameaçada pelas hidrelétricas. Foto Renato Rizzaro

Muitos de nossos contatos foram pela web e praticamente todos resultaram em grandes amizades, como Edson Lopes e Annelyse, que abriram sua casa em Alter do Chão (PA). Numa das saídas, caminhamos horas pelo istmo que dá um charme especial ao local, coroando de brancas areias o "caribe brasileiro", uma das mais belas praias de água doce do mundo! Edson nos acompanhou até Santarém e foi fundamental para nosso embarque Amazonas acima, rumo a Manaus.

Alter do Chão, o caribe brasileiro banhado pelo esplêndido Tapajós. Foto: Renato Rizzaro

Sanhaçu-da-amazonia (Tangara episcopus) banha-se no quintal do casal Edson e Annelyse. Foto Renato Rizzaro

Três dias de ferryboat nos revelaram um Amazonas mais vivo do que se possa imaginar. Botos cor-de-rosa rasgam a superfície de uma água barrenta, rica, cor de tudo quanto é solo que despenca das ribanceiras desse mar-doce-gigante.
Juntando-se aos isolados ribeirinhos, os aglomerados urbanos cortam a paisagem desde o limite da visão até apinharem-se na ribanceira. Aí, fica tudo triste, porque o lixo boia e empurra para dentro de nossos corações o que o intestino coletivo poderia transformar em húmus, alimento, em outra forma de vida, menos agressiva.

Para quem quer ir de um lado para outro do Amazonas: braços. Foto Renato Rizzaro

Cor de tudo quanto é jeito despenca das paredes do Amazonas, esse mar/rio tingido de solo. Foto: Renato Rizzaro

As ruas de Manaus transidas de biscateiros transformaram a Zona Franca num negócio-da-china. Quase ninguém sabe o que é HD externo, por exemplo. Ah, sim, tem o cinematográfico Teatro Amazonas, do Herzog, da Cláudia Cardinale e dos luxuosos ciclos da história do látex. Queríamos conhecer Figueiredo.

Apinhado na ribanceira, um Amazonas triste. Poderia ser muito diferente. Foto: Renato Rizzaro

Guiados pelo Gadelha fomos apresentados ao Galo-da-Serra, aparição que faz qualquer dedo tremer no disparador. Símbolo da floresta preservada, está cada vez mais raro, espremido pelas monoculturas, as tais que prometem salvar o mundo da fome, mas o que fazem é dissimular a capacidade que o ser humano tem de viver em sintonia com a Natureza. Atenção na palavra sintonia, ela pode salvar o Galo!

Frente a frente com uma dezena de Galos-da-serra em êxtase. Raios! Quem aguenta? Foto Renato Rizzaro

Renato Rizzaro e Gadelha saídos da arena do Galo-da-serra (Rupicola rupicola). Foto: Gabriela Giovanka

Caverna Maroaga, abrigo e ninho para a fêmea do Galo. Foto Renato Rizzaro



Pecado? Só do lado de lá. Foto Renato Rizzaro

Seguindo adiante, cruzamos a terra dos Waimiri-atroari, jogamos pião de tucumã, conhecemos a verdadeira história desse povo e fomos parar no Parque Nacional do Viruá, onde já foram registradas mais de 530 espécies de aves!
Vítor Piacentini fez a ponte com Thiago Laranjeiras, membro da equipe do Viruá. Thiago é fotógrafo, ornitólogo e carrega consigo uma tal caixa mágica de onde pode tirar, sem mais nem menos, qualquer ave que se queira. Exageros à parte, é profundo conhecedor da região.

Pretinho-do-igapó (Knipolegus poecilocercus) na Caixa de Surpresas do Thiago. Foto Renato Rizzaro


Ariranha na beira do igarapé da Estrada Perdida, Parque Viruá. Foto Renato Rizzaro

BR-174 abaixo e vamos cruzar o rio Solimões e passar pelo encontro das águas do Negro e Amazonas. Durante a travessia, conhecemos o casal que nos convidou para pousar em seu sítio à beira do rio Paraná do Mamori, em Careiro (AM). Gerson e Neide nos abriram a casa e o coração e nos proporcionaram uma experiência inesquecível, tanto por mostrar seu rincão, quanto por apresentar o Seu Roberval, que nos guiou até o ninhal de anhumas, onde pudemos ficar horas a observar casais aquecendo-se na manhã desdobrada em azuis rasgados por copas de samaúmas e castanheiras.
Sentíamo-nos pequenos e frágeis diante de tanta grandeza, com vontade de nos abrigarmos aos pés das árvores.
Por ali já está chegando o Programa Luz para Todos, do Governo Federal, atravessando grandes rios e levando o progresso aos mais distantes moradores. Alguns nem sabem o que é banheiro, muito menos tratamento de esgoto.

Rio Paraná do Mamori, experiência inesquecível entre gigantescas samaúmas e castanheiras. Foto Renato Rizzaro

E chegamos na BR-319, onde distâncias são medidas em torres da Embratel. Quer dizer, tudo fica perto, antes ou depois de uma torre, o que significa mais ou menos 50km. Alguns trechos foram percorridos em primeira marcha. Sobra tempo para prestar atenção aos buracos, pontes e banhar-se de igarapé e igapó. A primeira parada, já de noite, foi do "lado de cá" da balsa no rio Igapó-açu.

Os dois lados de Igapó-açu conectam a BR-319 por balsa. Foto Renato Rizzaro

Seu Antonio do Boto e Gabriela na BR-319. Foto Renato Rizzaro

Seu Antonio do Boto é o homem-natureza que encontramos do outro lado do rio. Fala com os animais, conversa com plantas, tem o espírito aberto e conta histórias dos tempos imemoriais do lugarejo, onde malucos perdidos atravessam de vez em quando, como dizem. Igapó-açu fica no meio do nada da BR-319, num trecho que já foi aeroporto e ainda é visitado por poucos caminhões de Manaus, em busca dos pescados capturados em longas viagens rio abaixo.

Seu Antonio do Boto e parte de sua grande família. Foto Renato Rizzaro

Na despedida, Seu Antonio nos falou de uma parada, duas ou três torres à frente, onde mora Dona Maria-do-vestidão, marido e seu filho Ismael. Uma nova aventura, dessa vez pelas trilhas abertas por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia - INPA e mantidas por ele e seu pai. Tivemos que aprender - na marra! - a nos equilibrar em paus roliços, fazendo a vez de pontes sobre emaranhados de igarapés e encantados pela conversa tímida e determinada de nosso desconfiado guia e griot Mael, protetor dos bichos da floresta.

Dona Maria e seu filho Mael. Foto Renato Rizzaro

Tantas torres além e chegamos ao Seu Paulo, que sonha voltar a morar ali mesmo na BR-319, com mulher e filha. Homem de poucas palavras, nos acolheu com um aperto de mão, à noitinha, ao lado da Ponte do Rio Novo. Nos banhamos à luz de lanterna, descansamos e no dia seguinte aprendemos a dobrar, cortar e montar as folhas do Babaçu (Orbignya speciosa), cobertura para a casa provisória da família. Seu Paulo conta que atearam fogo na sua primeira casa, num passado nebuloso.

O quarto da família na carroceria da camionete. Foto Renato Rizzaro
A alegria do banho de igarapé na 319. Foto Gabriela Giovanka

Paradas refrescam e descansam do volante, fazem refletir sobre a vida naquele pedaço de Amazonas onde só os fortes sobrevivem, com suas carabinas na garupa da bicicleta ou da moto, prontas para acertar onças, macacos, porcos, qualquer proteína que cruze seu caminho. Falam em proteção, em perigo, em bichos que abrem portas dos carros, sucuris engolidoras de gente, seres de outro mundo: fraqueza do desconhecido.

A estrada foi destruída, dizem, pelos donos das embarcações do Madeira. Foto Gabriela Giovanka

Caminhões carregados de troncos enormes próximos de Humaitá (AM) fizeram a tal fraqueza virar vileza e o barulho que havia ficado a 800 quilômetros de distância, na travessia do Solimões, cresceu assustadoramente na paisagem: máquinas atropelam gente, outra e outra e outra vez.

Mas - sempre tem um "mas" - Humaitá tem o melhor açaí do mundo, já nos avisara Guarim Liberato. Jornalista de Blumenau, mudou com a família para Porto Velho e de lá para Brasília, pois queria alcançar o centro febril de nosso Brasil. Com ele, iríamos conhecer Guajará-mirim, a Floresta Nacional do Jamari, navegar o rio Madeira, mas o seu trabalho na Capital não deixou, uma pena...

Fomos direto para Cacoal (RO). Indicados pelo Guarim, contatamos Ivaneide Bandeira Cardozo, da Associação Kanindé, que nos ligou com os Suruí. Batemos na casa do líder Almir Surui, pousamos na cidade e dia seguinte entramos na Terra Indígena Sete de Setembro. Estávamos prestes a finalizar nosso percurso pela Amazônia em tom maior!

Almir Surui nos concedeu uma grande entrevista. Ei-la:





























Almir Surui e Força Nacional em torno das Aves do Pantanal. Foto Renato Rizzaro

O retorno pelo Pantanal


Dali em diante, o roteiro ficaria aberto, pois já tínhamos cumprido nossa missão amazônica. Então, resolvemos relaxar e curtir o retorno à Reserva Rio das Furnas. Não sabíamos e nem esperávamos o que viria pela frente. Assim, chegamos a Poconé (MT) e dali entramos na Transpantaneira.

Dalci Oliveira na Transpantaneira. Foto Renato Rizzaro

Encontramos Dalci Oliveira na beira da estrada com uma turma de alunos. Dalci é professor/ornitólogo da Federal de Mato Grosso e havíamos trocado altos papos no Avistar 2012. Depois de um gostoso cafezinho debaixo de uma grande Piúva, seguimos até Porto Jofre, com o convite de passar na Chapada dos Guimarães na volta. Lá, conhecemos Márcio Trevisan, sua esposa Regina Deliberai Trevisan e seu filho Txai. Energia pura num encontro muito legal. Nos hospedamos na casa do casal e conhecemos um pouco da Chapada, com Dalci e família.

Tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) na BR-419. Foto Renato Rizzaro


Estávamos com dezenas de posters das Aves do Pantanal para serem doados à Fundação Neotrópica. Marja Milano, Ciça, Anne e equipe nos esperavam em Bonito (MS). Então, rumamos para lá por um caminho encantado: saímos da BR-163 e entramos na BR-419 em Rio Verde, até Aquidauana.


Cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus) na chuva pra ficar mais bonito. Foto Renato Rizzaro

Em Bonito, passamos rapidamente, com tanta saudade de casa que nem deu tempo de rever nossos queridos amigos. Novamente, como em 2011, fomos abençoados com um pé d'água daqueles!
De Bonito para a Reserva Rio das Furnas, o caminho estaria traçado.


Agradecimentos

Alan Souza (Santa Fé do Sul - SP)
Aleixo Sapateiro e família (Humaitá - AM)
Almir Surui e família (Cacoal - RO)
Amilcar Oliveira (Ilha de Santa Catarina - SC)
Ana Cavalcante (Wikiaves)
Anselmo d'Afonseca (Manaus - AM)
Antonio do Boto e toda a vila de Igapó-açu - AM
Beato e familia, JA Auto Peças (Itaituba - PA)
Beatriz de Aquino Ribeiro Lisboa - ICMBio (Boa Vista - RR)
Chicoepab e equipe da Associação Metareilá (Cacoal - RO)
Cocó e família Rotta (Nova Xavantina - MT)
Christian Andretti (Wikiaves)
Dalci M M de Oliveira e família (Cuiabá - MT)
Dona Maria, Seu João e Ismael (BR319 - km300 -AM)
Ebenézer Souza Soares (Tibagi- PR)
Edson Endrigo (São Paulo - SP)
Edson Varga Lopes e Annelyse (Alter do Chão- PA)
Esmeralda e Comunidade da Vila Rayol (Itaituba - PA)
Fabiano Oliveira (Chapada dos Guimarães - MT)
Fábio Menezes de Carvalho (FLONA Tapajós - PA)
Flavio Kruger (SPVS)
Gerson e Neide (Careiro - AM)
Gil Serique (Alter do Chão - PA)
Gilberto Nascimento e Enoc (PARNA Amazonas - PA)
Guarim Liberato e família (Brasilia - DF)
Gadelha, o guia (Presidente Figueiredo - AM)
ICMBio Boa Vista - RO
ICMBio Itaituba - PA
Ingrid Macedo (Wikiaves)
Ivaneide Bandeira Cardozo - Associação Kanindé (Porto Velho - RO)
Izan Peterlle (Chapada dos Guimarães - MT)
Jarbas Mattos (Wikiaves)
Juliane Tavares (Presidente Figueiredo - AM)
Manoel Vicenti da Costa e família (BR174 - km76)
Márcio Trevisan e familia (Chapada dos Guimarães - MT)
Margi Moss (Brasília - DF)
Marja Milano, Ciça, Anne e equipe Fundação Neotrópica (Bonito - MS)
Maurinho do Roncador - MT
Milton Paula (Tocantins)
Nereu Surui (Professor da Escola Surui)
Nicolaas e familia - RPPN Sonho Meu (Tibagí - PR)
Pompeo Fotografias (São Paulo)
Renato Gama (Ilha de Santa Catarina)
Roberto Percinoto (Rio de Janeiro)
Robson Czaban (Manaus - AM)
Santana (PM de Manaus - AM)
Seu Paulo e Dona Graça (BR319 - Rio Novo - AM)
SPVS - Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (PR)
Thiago Laranjeiras, Bia, Seu Iran, Branco e equipe (PARNA Viruá - RR)
Thop Midia - Produção agência de notícias (Alta Floresta - MT)
Vítor Piacentini (USP)
Vitoria Riva e equipe Cristalino (Alta Floresta - MT)